Não existe “mas será que…” quando o assunto é violência

“Mas será que ela ia realmente te agredir”?

A relativização da segurança da mulher é um problema constante e até mais grave que a agressão em si: mesmo havendo agressão, a mulher tem que provar que não provocou ou que não entendeu errado o que aconteceu.

Hoje eu passei por uma situação de risco: chegando no trabalho, notei um homem me olhando estranho quando saí do carro. Desses olhares que te arrepiam e te colocam em estado de alerta. Ele foi andando na minha frente e eu, instintivamente segurei a respiração na expectativa. Ele passou pela escada onde eu ia subir e parou. Abaixou para fingir que amarrava o sapato e ficou me olhando de canto de olho. Acelerei meus passos e subi a escada de entrada do meu prédio e fui seguida por gritos de “sua puta! Não adianta fugir” e mais um monte de coisas que não entendi.

Entrei no prédio correndo, sem dar meu “bom dia” diário ao porteiro ou aos meus colegas de trabalho e subi as escadas correndo. Cheguei no escritório tremendo e pensando em como me senti desamparada: as pessoas em volta, que viram a cena, nada fizeram.

Contei o que aconteceu para algumas colegas. Duas delas me acolheram e disseram “ainda bem que não aconteceu nada”. Outra me perguntou “mas será que ele ia fazer alguma coisa com vc mesmo?”. Ia. Claro que ia. A reação dele quando eu subi a escada em vez de passar por ele deixou isso bem claro.

E ela continuou: “ele era negro”? “Era”, respondi.

“Será que vc não ficou com medo por causa disso? Tendência em achar que negro é sempre bandido?” Eu já estava nervosa e agora precisava me explicar para outra mulher. Então juntei meus cacos e respondi:

“Isso não significa nada para mim. A primeira vez que fui seguida por um homem, eu tinha 15 anos e ele era loiro, do olho azul. Ele me seguiu do colégio até em casa e eu fiquei apavorada independentemente da cor da pele dele. Cor de pele não significa nada nessas horas. E digo mais: a gente sabe reconhecer o olhar de uma pessoa apenas olha para vc, uma pessoa que te come com os olhos e uma pessoa que vai te fazer algum mal. Eu estou dizendo que era o terceiro caso”. Encerrei a conversa e saí da sala para recompor meus caquinhos.

Estou escrevendo isso com as mãos geladas e ainda estou tremendo. Não porque passei por uma situação de risco. Essa não é a primeira nem a última vez que isso acontece comigo. Mas porque eu precisei me defender de outra mulher. Precisei me explicar e dizer “não estou sendo racista. Não foi achismo de minha cabeça”.

Relativizar qualquer tipo de agressão é errado. Fui agredida verbalmente e senti que havia algum risco. Isso deveria ser o bastante. Ponto final.

Carta a uma ex amiga

0802

Lembrei que essa semana foi seu aniversário e mesmo ainda me sentindo profundamente magoada com a forma como as coisas aconteceram, me deu vontade de te mandar meus parabéns. Mas você me bloqueou em todas as redes sociais e também no celular, então não tinha como enviar nenhuma mensagem.

A verdade é que eu não mandaria mesmo que você não tivesse me bloqueado. O orgulho é um defeito que eu insisto em carregar com orgulho (pausa para apreciar a irônica redundância).

Então resolvi escrever para você aqui, mesmo sabendo que você não irá ler.

Queria te contar porque eu senti tanta raiva de você naquela época. É que eu sou dessas pessoas reservadas que contam nos dedos das mãos quantos amigos eu tenho. E você fazia parte desse panteão de deusas que tornavam minha vida mais alegre. Até irmos trabalhar juntas.

Você sempre foi geniosa. Mas eu também. Você sempre gostou de fazer o papel de menina frágil e eu sempre me fiz de durona e inquebrável. Você sempre teve medo de se impor. Eu sempre fiz isso com muita facilidade. Você sempre teve facilidade em fazer amigos. Eu sempre fui difícil de me deixar conhecer. A gente era similar em milhares de coisas e nossas diferenças pareciam se complementar e tornar a outra mais forte.

Mas então você tentou me mostrar que não queria algo. E eu não percebi os sinais, que à proposito, hoje são bem claros para mim. Quando você finalmente se impôs, batemos de frente e você passou dos limites.

Você passou dos limites da decência humana, na realidade. Não foi o fato dizer certas coisas da boca para fora que me magoou, mas foi usar o conhecimento de 10 anos de amizade como munição. Foi jogar na minha cara confissões que fiz a uma amiga. Foi enfiar uma faca exatamente onde você sabia que estava ferido.

Eu segui conselhos de algumas pessoas. “Seja humilde “, me disseram. “Você é emocionalmente mais forte que ela. Pessoas mais fortes tem a obrigação de entender os mais fracos”. E eu tentei te entender. Tanto que entendi. Analisei a situação durante um bom tempo e descobri as coisas que eu havia feito errado. “Eu não teria agido dessa forma se fosse outra chefe”, eu falei para mim mesma várias vezes. E quando achei que tudo iria melhorar, você abandonou o barco sem aviso prévio e deixou um desconforto ainda maior. Foi embora na calada da noite, sem nem um tchau e sem nenhuma chance de reparar o buraco no casco do barco.

No meio de minha raiva, te chamei de covarde. Recontei nossa história mil vezes te jogando toda a culpa. Culpa essa que hoje chamo de responsabilidade e que divido de bom grado o peso com você. Mesmo que você não saiba.

Essa semana foi seu aniversário e eu não te dei os parabéns. Mas quero dizer que aprendi muitas lições com tudo o que aconteceu e por isso, lhe sou grata. No meio de toda a confusão, dos seus gritos, das minhas lágrimas escondidas, do meu orgulho ferido e dos meus erros, eu me tornei uma pessoa melhor.

A mágoa ainda está aqui, quietinha esperando o dia que vai deixar de existir. Mas a raiva já secou. E se um dia eu te encontrar na rua não irei virar as costas. Nem irei te dizer os mil desaforos que planejei dizer há 2 anos. Irei sorrir para a ex-amiga que me ensinou uma difícil lição e seguir meu caminho.

Então, cara ex-amiga, deixo aqui registrado meu muito obrigada por ser parte de uma difícil lição de vida. Feliz aniversário! Fique em paz.

Plantando Sementes

170111

Ontem eu estava conversando com um vendedor da empresa que eu trabalho. Ele estava contando que um amigo pediu a moto dele emprestada e me disse “Carro e mulher são coisas que não se emprestam”.
“E carro e mulher são iguais?” – perguntei. Ele fez cara que não entendeu minha pergunta. “Carro é um objeto inanimado que não tem vontade própria. Mulher é ser humano e faz o que ela quiser. Cuidado com a frase machista”.
“É uma amiga que sempre diz isso”. – ele respondeu.
“Sua amiga tb é machista. Mulher é coisa?”
“Não, né?” ele perguntou ainda com dúvida.
“Não é. Mulher é gente”.
“Vc tem razão. Vixe… que frase feia que eu falei”.
“Tb acho”
“Mas foi minha amiga quem me disse”.
“Ela tb é machistinha. Mas isso não te dá o direito de ser tb”.
“É…” e ficou quieto uns 5 minutos antes de mudar de assunto.
Plantei a semente. Espero que nasça. 

A Política, o Ódio e outros sentimentos

161112

“Puta! Vá se foder, Hilary”

“Vadia”!

“Enforque essa a puta”!

“Vá se foder, seu preto”!

“Saia daqui, viadinho”!

“Sieg Hiel”! (expressão alemã que significa “salve a vitória”, usada por Hitler)

Isso são apenas alguns dos comentários dos eleitores de Donald Trump que foram capturados em vídeo. Quando saiu o resultado das eleições americana, minha timeline foi inundada de postagens políticas e apocalípticas: será esse o início do fim do mundo? Aqui no Brasil, nossa realidade não é tão distante do preconceito, machismo, homofobia, transfobia e racismo dos americanos.

Nesse momento, eu não me importo muito com sua posição política. Você pode ter sido contra ou a favor do impeachment, contra ou a favor de Trump. Mas a forma como você lidou com tudo o que aconteceu por aqui nesses últimos meses diz muito sobre você.

Hilary, uma mulher branca, foi xingada. Desrespeitada. Donald Trump, que inclusive confessou quando não sabia que estava sendo gravado de agredir mulheres se livrou de tudo dizendo que era “conversa de vestiário”.

Dilma, uma mulher branca, foi xingada. Desrespeitada. E aqui não consigo nem escolher apenas 1 político homem para fazer o comparativo, de tantos que foram perdoados por serem homens (estupradores, drogados, corruptos… como escolher apenas 1?).

Sua posição política deveria ser a menor das questões.

Mas não é.

Deixando de lado o fato dela ter sido a Presidente, o que por si só exigiria algum respeito, Dilma é uma senhora. Uma mãe, uma avó. Você gostaria que falassem de sua avó como falavam dela? Que fizessem adesivo incentivando seu estupro? Que a chamassem de puta? Que escrevessem em revista de circulação nacional que o problema de sua avó era falta de sexo? Então porque considerou ok escrever isso tudo sobre Dilma? Você pode não concordar com as políticas dela. Pode achar que ela foi uma péssima administradora. Mas faltar com respeito, nunca!

Vou ainda mais longe, você não deveria se chatear com o desrespeito a ela porque você tem avó, ou mãe, ou irmã. Você deveria ter se chateado porque você é um ser humano. E seres humanos deveriam ter empatia e respeito a outros seres humanos.

Donald Trump é casado com uma mulher linda. Que já foi modelo, mas hoje é uma bela, recatada e do lar. Igual a Primeira Dama brasileira. Uma mocinha boba, infantilizada pela mídia e que ocupa um papel figurativo num governo retrogrado, machista, homofóbico, racista e elitista.

A eleição americana e a política brasileira têm algo em comum: a raiva generalizada. Lá na terra do Tio Sam, Trump ganhou ao incitar o ódio às mulheres, negros, gays, latinos, muçulmanos e qualquer um que fugisse do padrão de família branca.

Você percebe a semelhança com o quadro político brasileiro? Fugiu do padrão de tradicional família, será odiado.

Eu não gosto da palavra vitimismo, mas arrisco até a usá-la aqui: “as feministas querem acabar com a tradicional família brasileira”; “os gays querem acabar com a tradicional família brasileira”; “os transexuais querem acabar com a tradicional família brasileira”.

A Tradicional Família Brasileira, que sempre esteve no poder, de repente se viu perdendo espaço (na verdade, eles não perderam nada, mas a gente conquistou alguns espaços que eram exclusividade deles). É preto e favelado entrando na universidade. É mulher sendo chefe de estado. É gay ocupando cadeira no senado. “Eles estão tirando o poder da gente. Vamos ser dominados por mulheres, por negros, por gays, por nordestinos” (aliás, o que o Sul faz com os nordestinos é o que os EUA fazem com latinos).

Sabe que outra sociedade teve um pico de ódio generalizado como esse? A Alemanha Nazista. Bastou que um homem que soubesse manipular as pessoas através do ódio tomasse o poder para que judeus, ciganos, negros e mulheres passassem a ser considerados seres menores.

Não é à toa que o movimento neonazista está crescendo.

Só que lá nos EUA a gente ainda entende, mesmo que não concorde. Aqui no Brasil? Em um país tão miscigenado, com uma mistura tão bonita? Pregar a pureza de raças chega a ser irônico.

O momento político mundial é um whitelash: uma reação da parcela branca da população aos movimentos de empoderamento da parcela não branca. A Europa vive a crise dos refugiados, com brancos gritando para qualquer um que não pertença a sua “raça” para “voltar para a África”. Os eleitores de Trump gritaram “construa o muro”, para manter os latinos fora dos EUA. E Marcela Temer deixou claro que no governo atual, o lugar de mulher é em casa cuidado dos filhos.

Está tudo conectado. Os países são diferentes. Os governos são diferentes. Mas quem quer nos mandar de volta de onde saímos esquece que foram eles que nos procuraram em primeiro lugar. Foram os Europeus que decidiram explorar a África, o Oriente e as Américas. Foram eles os responsáveis por nos mostrarem que eles estavam ali. Foram eles os primeiros imigrantes. Agora não dá mais para voltar atrás.

Foram os homens com sua sede de poder e guerra que forçaram as mulheres a entrarem no mercado de trabalho durante a Segunda Guerra Mundial. Ou a gente trabalhava, ou não haveria mão de obra, já que os homens estavam no front de batalha. Agora não dá mais para voltar atrás.

Seja sua visão política liberal ou conservadora ou sua visão econômica capitalista ou socialista, o que o mundo precisa nesse momento é tolerância. Não dá mais para voltarmos atrás e mudar o que já foi. O que precisamos agora é caminhar para frente e em direção a um futuro melhor.

Como diria Pitty, “o negro não vai voltar para a senzala nem a mulher para a cozinha nem o gay para o armário”. Nós estamos aqui e vamos continuar aqui. O ódio não vai vencer.

Não vamos nos calar

161028

A aula de spinning estava a todo vapor!  O suor escorrendo, as pernas doendo. Tudo como deveria ser. Aí a professora gritou “aumenta a carga e joga o quadril para traz”.

Pronto. Acabou o sossego.

Um macho alpha deu um grito “Ai, delicia. Vem, delicia”. O que se seguiu foi uma série de gritos pornográficos.

A turma que até então dava gritos animados quando a professora mandava aumentar a carga ou a velocidade ficou muda.

Depois de alguns minutos com o macho alpha gritando, eu disse em alto e bom som “Esse cara deve ser frustrado sexualmente”. Claro que não foi suficiente para ele parar. Ele simplesmente ignorou meu comentário e continuou deixando as mulheres da turma constrangidas. Em certo momento da aula, a professora dava uma risada sem grança antes de dar o comando e apenas dizia “quadril”.

Quando cheguei em casa e contei o ocorrido, ouvi de minha mãe: “não faça isso. Você não sabe quem ele é. Ele poderia ter te dado uma resposta que você não ia gostar ou ter te agredido”.

Agora eu pergunto: alguém, alguma vez, disso a um homem “não faça isso. Ela pode te dar uma resposta que você não vai gostar”? Não, né?

Pois é.

Apesar de ter sido criado feminista, com minha mãe me dizendo para não esperar por homem para resolver meus problemas, eu também fui criada no paradoxo de não responder para “me preservar”.

Então quando eu tinha 18 anos e um desconhecido disse no meu ouvido, no meio da rua, que “queria chupar esses peitinhos” ou o colega da faculdade que eu nem conhecia me disse “queria te pegar de quatro”, eu não respondi. Apenas ignorei.

Mas ignorar foi uma agressão a mim mesma. Foi engolir a seco o assédio que até então chamávamos de cantada, como se dizer que o cara estava “cantando” reduzisse a agressão.

Essa geração de homens que cresceu com mulheres caladas precisa aprender que essa época já acabou! A gente vai falar, sim. A gente vai reclamar, sim.

Minha prima outro dia mandou um cara que a assediou “tomar no cu”. Ele ficou chocado e foi embora. As mulheres mais velhas da família também ficaram, porque elas não aprenderam a responder. Minha geração descobriu que responder tem um efeito muito melhor que calar. Porque quando a gente cala, eles acham que está tudo bem. Mas não está. Era só medo mesmo. Medo porque vocês, homens, são mais fortes e bater em mulher não era um bicho de sete cabeças. Mas essa época já acabou.

Eu sei que a gente ainda vai apanhar muito (metafórica e literalmente) antes das coisas melhorarem, mas a gente não vai ficar calada! Nunca mais!

Setembro Amarelo

160930

Pode o suicídio ser uma escolha quando ele é a única escolha disponível?

Encarar a própria vulnerabilidade e se colocar no lugar de quem faz o impensável é um desafio. Quando pensamos no suicídio, tendemos a racionalizar e nos afastar do estado mental de uma pessoa que tira a própria vida.

Como poderia o suicídio ser a única alternativa? Muitas vezes, preso na bruma do desespero, não é possível enxergar nenhuma alternativa que não seja “deixar de existir”. E quão desconfortável é se deparar com um momento em que não vemos nenhuma alternativa para sair de uma situação extrema de dor (física, psicológica ou as duas).

É por isso que movimentos como o Setembro Amarelo são tão importantes. A melhor maneira de ajudar um suicida em potencial é lançar luz sobre o assunto.

O suicídio é um problema de saúde pública mundial e estima-se que mais de 800 mil pessoas se matem todos os anos. No Brasil, são 33 suicídios por dia: 1 suicídio a mais ou menos cada 43 minutos!

A Depressão, o Estresse Pós-Traumático e Transtorno Bipolar são os transtornos mentais que mais se relacionam com o suicídio. Mas seria errado presumir que todas as pessoas que sofrem desses transtornos têm intenções suicidas: 90% dos suicídios foram cometidos por pessoas que possuíam algum transtorno mental, mas apenas 2% das pessoas diagnosticadas com transtornos mentais cometem suicídio.

Outra relação feita é que é mais comum o suicídio ocorrer em países mais ricos, entre homens e entre pessoas mais velhas. Porém essa também é a principal causa de morte no mundo entre meninas de 15 a 19 anos. Pessoas com histórico de abuso físico, psicológico ou sexual e pessoas que pertencem a grupos discriminados também são fatores de risco ao suicídio.

O diagnóstico de um suicida em potencial é mais complicado do que possa parecer. Pelo menos a um leigo. Mas existem sinais que podem nos ajudar a identificar.

O mais obvio é que pessoas que têm a intenção suicida irão falar sobre isso. Elas irão dizer que estão “cansadas de tentar”, que “precisam pôr um fim nisso”, que “vão desistir”. E o que precisamos parar de dizer urgente é que “é drama”. Muitas vezes é um pedido de ajuda ou um aviso que deve ser levado a sério.

A primeira coisa que precisamos entender para ajudar um suicida em potencial é que a elasticidade de nossa percepção impacta diretamente a nossa saúde mental. Quer tenhamos algum transtorno mental ou não, nossas escolhas serão definidas por quão expendida ou contraída a nossa percepção se encontra. Num momento de dor ou de trauma, nossa percepção contrai-se apenas aquele momento. Não existe a possibilidade de pensar a longo prazo. O que importa é o aqui e o agora. O que importar é pôr um fim na dor.

Nesse momento de dor intensa, racionalizar o que a pessoa está sentindo não ajuda. O que irá ajudar é ter empatia, acolher a pessoa em sua dor, ouvir sem julgar e estar presente. Outro ponto importante é procurar a ajuda profissional.

Pesquisando para escrever esse post, me deparei com o depoimento de Mark Henick, que quando garoto tentou se matar diversas vezes, sendo resgatado por professores na escola e até por estranhos na rua. Seu depoimento é impactante, mas uma frase se destacou (além da primeira frase desse post, que é dele): “só mais um dia. Eu consegui passar por hoje. Talvez consiga só mais um dia”.

Essa era a frase que ele repetia para si mesmo quando tentava se convencer a não tirar a própria vida. E sabe o que ajudou Mark a desistir de se matar e viver? Falar sobre o assunto.

Então, se você pensa em cometer suicídio ou conhece alguém pense, fale sobre o assunto. Sem julgamento e sem medo. Conversar ajuda a não nos sentirmos sozinhos.

E se não tiver ninguém com quem se sinta à vontade, o Centro de Valorização da Vida conta com pessoal especializado para ouvir e aconselhar. Ligue 141 ou acesse o site deles aqui.

Representar vs Representatividade

160827

Depois de meu último post sobre a campanha da Vogue Brasil para a Paraolimpíadas, algumas pessoas têm me abordado para dizer que não viram nada demais na ação da revista. Que é hipocrisia reclamar porque a foto gerou uma enorme visibilidade para o evento desportivo. Ou seja, sucesso da Vogue, certo?

Hoje me marcaram num vídeo onde a Cléo Pires fala, irritada, sobre a repercussão negativa da campanha. Finalmente eu entendi porque as pessoas não estão vendo nada demais na campanha da Vogue.

O problema está justamente na fala de Cléo Pires:

“Eu acho que as pessoas não entenderam que eu e o Paulo estamos representando 2 atletas paraolímpicos”.

Cléo, meu amor, vem cá. Senta aqui com a megera que eu te explico. As pessoas entenderam que vocês estão representando 2 paraatletas. Esse é o problema. Não queremos ver ninguém sendo representado. Queremos ver representatividade.

“Se vocês não gostam porque você são hipócritas, esse é um problema de vocês”.

Mas uma vez, queridinha, venha cá, senta aqui juntinho. Hipocrisia é dizer “vocês são bem-vindos aqui na minha casa. Podem comer à vontade, tá? Mas entra pela porta dos fundos e fica lá dentro, na cozinha. Eu sei que o evento é para vocês e estamos querendo aumentar a visibilidade de sua causa, mas é que meus convidados vão ficar incomodados de ver vocês. Nada contra, sabe? Só que eu só quero gente perfeita na sala. Mas não se preocupem. Contratei uma modelo bonita que vai usar uma prótese falsa. Gente, o evento foi um sucesso. Arrecadamos bastante dinheiro para vocês. Toma aqui. Pode ir embora que agora todo mundo está me vendo como uma pessoa consciente. Ah, não, espera. Ainda tem gente esperando o elevador. Daqui a pouco vocês saem, ok? Obrigada. De nada.”

Ok, nem todo mundo pensa, né, queridinha? Então vamos à uma aula bem didática?

Representar, o verbo, é reproduzir uma imagem, um símbolo ou ainda encenar. É fingir ser algo que não é. Você, Cléo, fez isso. Aliás, você faz isso muito bem, como atriz.

Representatividade, o substantivo, é dar a alguém ou a um grupo a oportunidade de se expressar por si mesmo.

Representar é verbo. Do ponto de vista semântico, verbo é a noção de ação. Já representatividade é substantivo. Substantivo é essência. Você pode representar o portador de necessidades especiais lindamente, Cléo. Mas a não ser que se torne uma, você não terá a essência e não entenderá a causa na sua profundidade. Eu também não entendo. E por isso não me dou ao direito de tirar deles a oportunidade de falar por eles mesmos.

A ideia da campanha foi, sim, ótima! As Paraolimpíadas precisam mesmo de mais visibilidade. O problema é que a execução foi péssima!

Agooooooora, imagine se depois de todo esse bafafá a Vogue posta uma segunda foto, exatamente igual a primeira. Só que dessa vez, com os atletas que emprestaram suas deficiências (não gosto dessa palavra… tem algum termo melhor que eu possa usar?) para Cléo Pires e Paulinho Vilhena e a legenda: “Se tivéssemos postado apenas essa imagem, você teriam dado a mesma atenção?” Seria fodastico!

Para finalizar, vou deixar Leslie Jones explicar a importância da representatividade. Essa aula é bem melhor que a minha.