Arte & Censura: Sobre a Exposição QueerMuseu

Se vc pesquisar no Google, vai achar centenas de milhares de respostas possíveis para a pergunta “O que é arte”. O consenso parece ser que arte é a criação consciente de algo significativo a partir de habilidades e da imaginação. Um dos conceitos de arte que eu mais gosto é que ela é aquilo que nos faz sentir algo. Seja felicidade ou admiração, seja desconforto ou raiva.

Arte pode tudo (desde que respeitemos alguns limites como os Direitos Humanos). A arte pode servir para ser admirada, decifrada, pensada ou para iniciar uma conversa. Ela toca em temas usuais como fotografias de paisagens e temas polêmicos como religião ou morte. Mas o que determina se algo é arte ou não? Uma das possíveis formas é analisando sua relevância social.

E aqui me vejo fazendo o papel da Advogada do Diabo quando o assunto é a mostra “QueerMuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira”. A exposição foi censurada e encerrada 1 mês antes do prazo por levar temas polêmicos ao Santander Cultural em Porto Alegre.

As primeiras imagens que vi me trouxeram desconforto e até certa repulsa. Sim, chamar um menino de “criança viada” é muito feio. E aquele quadro que tem uma ilustração de um homem fazendo sexo com um animal é o cúmulo da bizarrice, na minha humilde opinião de ativista vegana. Mas não. Eu não acho que a exposição merecia ser censurada e fechada.

E antes que joguem pedras em mim, deixa eu explicar o motivo: vc percebeu como nos últimos dias as pessoas têm falado sobre pedofilia, zoofilia e respeito às diferenças usando a exposição como base?

Essa é sua contribuição social. Ela é feia. Desconfortável. Causa ânsia. Mas tem um proposito. Eu não curti as imagens que vi da mostra do Santander, mas não vejo o porquê da censura.

No meu papel de reles mortal, não me sinto gabaritada para criticar a arte. Mas no meu papel de cidadã, me vejo gabaritada para criticar a censura. Somos uma democracia recente, que viveu 2 décadas em Ditadura Militar e encontrou liberdade há apenas 3 décadas. Somos um país em que expressões como “tinha um amigo que foi achar e nunca mais acharam ele” ainda é repetida, resquício da época em que criticar o Governo tinha a pior das consequências.

Vc pode, assim como eu, não ter gostado de algumas imagens da exposição. Mas pedir a censura? Será que vc não vê o perigo disso?

Estamos em um país teoricamente laico e com liberdade de expressão, certo? Certo. E se eu tenho liberdade de expressão, eu posso fazer uso dela da forma como eu achar melhor. Sabendo, claro, que irei sofrer as consequências dessa liberdade caso eu fira algum artigo de nossa Constituição.

Quando um artista apresenta uma obra, ela deixa de pertencer a ele e passa a pertencer ao espectador, que irá resignificá-la a partir de suas experiências de vida. Quando vi a obra do “criança viada”, achei feio porque pensei no bullying que crianças gays enfrentam todos os dias. Outras pessoas viram apologia à pedofilia. As duas interpretações estão corretas. Não existe certo ou errado na arte. Em vez de censurar a obra, ela deveria ter sido discutida. Seja sobre bullying, pedofilia ou homossexualismo.

A exposição tinha mais de 200 obras. Eu vi apenas meia dúzia das que foram parar na internet (as mais polêmicas). Acho que arte tem que ter esse papel de polemizar mesmo. De arrancar as pessoas de suas zonas de conforto e fazê-las questionar suas crenças. Vc pode ter gostado. Vc pode ter odiado. Vc pode ter ficado indeciso. Mas censurar a exposição abre as portas para um perigoso precedente.

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Crítica de Filme: Onde Está Segunda?

Se o filme tivesse sido lançado há uns 5 anos, eu estaria empolgadíssima com o thriller sci-fi que tem 7 irmãs gêmeas como protagonistas.

Mas vivemos num mundo pós Orphan Black, em que Tatiana Maslany interpretava as mulheres clones com maestria e a produção e a direção a permitiam explorar toda a complexa personalidade de cada uma delas, com nuances e traços que iam muito além do arquetípico clichê das personagens femininas superficiais de Hollywood.

E acima de tudo, estamos em 2017, num mundo onde o feminismo já nos explicou a importância da representatividade feminina pela mídia. Então por mais que o filme tenha boa cenas de ação num roteiro previsível, seus problemas são de uma seriedade que não podemos mais ignorar.

Se vc ainda não viu o filme, vá assistir antes de passar desse ponto. Este post contém spoilers.

Produzida pela Netflix, a história se passa em um futuro não muito distante, em que a capacidade de produção de alimento não é suficiente. Como solução, os cientistas criam alimentos transgênicos de rápida produção e em maior quantidade, mas que tem um efeito colateral inesperado: começam a nascer gêmeos, o que piora a situação. O Governo então instaura a lei do filho único e os filhos excedentes passam por processo de criogenia para serem acordados quando o problema populacional for resolvido.

Nesse mundo, nascem 7 irmãs gêmeas, que são criadas escondidas pelo avô. Cada uma tem um nome da semana e só pode sair na rua no dia da semana com seu nome. Lá fora, todas assumem a mesma personalidade e vivem a mesma vida.

Domingo é a boa moça das 7 irmãs. Ela está saindo da igreja quando a vemos pela primeira vez. Segunda é a certinha trabalhadora. Terça é a frágil doentinha que precisa de ajuda até para pentear o cabelo. Quarta é a esportista e lutadora. Quinta é a rebelde que odeia tudo. Sexta a nerd que entende de computador e tecnologia e se descreve como “não sou ninguém”. Sábado é a festeira que adora beber. Não existe complexidade. É tudo fácil de entender.

Orphan Black se fortalece nas cenas em que as clones interagem entre si. Onde Está Segunda? começa com esse mesmo ritmo, mas logo se perde na ação e a interação entre as irmãs se torna frágil o suficiente para tornar o final do filme previsível.

Noomi Rapace (Prometheus e a versão sueca da trilogia Os Homens que Não Amavam as Mulheres), que dá vida às irmãs, fez um excelente trabalho com o pouco que lhe foi oferecido. Mas mesmo uma atriz capaz não poderia transformar um roteiro cheio de clichês em um filme formidável.

Um dia, Segunda desaparece. Na busca por ela, as irmãs começam a ser caçadas pela agência que controla a lei do filho único. Em meio de cenas de ação bem-feitas, as irmãs vão morrendo. A cena da morte de Domingo é até interessante: quando percebe que está morrendo, Domingo diz que desistiu e uma das irmãs responde “você deveria ser a que tem fé”. É como se os roteiristas do filme piscassem o olho para o espectador e dissessem: “eu sei que a gente está fazendo um clichê”. Quase faz com que o filme seja desculpado. Quase.

Então entra o interesse romântico. Num roteiro previsível, Segunda está apaixonada por um agente de Alocação de Crianças. Outro clichê: ele é um bom rapaz, que não sabe nada sobre a vida secreta da amada e que acredita com uma confiança beirando a infantilidade que a agência está fazendo o melhor trabalho possível e que as crianças serão acordadas num futuro próximo.

Sabe aquela história da coincidência que salva toda a história? Pois bem. Graças a esse bom moço que descobre que a agência não é magnânima e que sua amada foi sequestrada e possivelmente assassinada, as irmãs conseguem acesso ao serviço de alocação de crianças para desmascarar Nicolette Cayman (Glenn Close), a manda-chuva fodona que tem ambição de controlar o governo. E essa é minha maior decepção com o filme.

Tommy Wirkola (conhecido pela péssima adaptação da história de João e Maria de 2013) tem uma direção unilateral e monótona: preto é preto, branco é branco e não existem muitos tons de cinza entre eles. Glenn Close tirou leite de pedra ao mostrar duas nuances de Cayman: dura na lei, mas mostra um certo remorso com o que faz com as crianças. Na hora em que a verdade é revelada (as crianças não passam por criogenia, mas são assassinadas) em vez de assumir suas ações, Cayman tem um faniquito digno de filmes da década de 50 em que a mulher frágil não sabe lidar com fortes emoções e desmaia.

Isso mesmo, senhoras e senhores. A chefe fodona da agência que manda assassinar crianças e caçar as irmãs gêmeas desmaia.

Logo em seguida, para piorar, ela tem uma crise histérica e confessa tudo, na frente que várias pessoas, culpando tan-tan-taaaaaaaaan… (suspense desnecessário) Segunda!

Sim! Segunda está viva e estava trabalhando com Cayman para acabar com as irmãs e ela poder viver a vida dela.

“Como assim?”, você me pergunta. Sabe o que levou a certinha trabalhadora que curte sexo BDSM (Wirkola não teve tempo para aprofundar as personagens, mas teve tempo para mostrar que Segunda teria de dado bem com Christian Grey) a trair as 6 irmãs? O amor. Ah, o amor!

Sabe o agente bom moço? Ela estava apaixonada e precisava viver com ele. Então ela trama contra as irmãs. No finalzinho, a gente descobre que Segunda estava grávida de gêmeos e queria que seus filhos vivessem sem se esconder. Mas ela teve seu castigo e morreu e os bebês foram gerados num tanque, com as duas irmãs sobreviventes admirando os gêmeos ao lado do agente bom moço.

Então é isso. Não tem mais jeito. Acabou. Boa sorte.

Para a mídia, somos mulheres tolas, estereotipadas e superficiais. Podemos até ter atitudes “de macho”, mas no momento em que tem homem no meio, vamos, sim, trair nossas irmãs. Afinal, mulher é tudo cobra.

Não é possível que em meio a tudo que se tem falado sobre representatividade, sobre construção de personagens femininas complexas ainda existam produções que passem essa mensagem.

Não é possível que num mundo pós Orphan Black, Scandal, How to Get Away With Murder, Big Little Lies, Castle, House of Cards, Game of Thrones, Empire, Orange is the New Black, The Handmaid’s Tale e tantos outros com personagens femininas complexas ainda considerem filmes assim aceitáveis.

O conceito do filme é interessante, com a possibilidade inicial de trabalhar e desenvolver questões ligadas a personalidade, identidade, vida familiar e até cenas de espionagem dignas de filmes como 007 dentro de um universo distópico. Mas Direção e Roteiro falham ao recorrer aos clichês da violência gratuita. O resultado é um filme previsível.

E sem a construção de personagens fortes, a única coisa que sobra ao final é o desconforto de ver na tela a repetição de um clichê que há muito já deveria ter sido extinto: o da mulher que irá trair suas irmãs por causa de macho.

Em pleno 2017, isso não é mais aceitável.

Agir: Verbo Transitivo Indireto

Essa última semana eu venho pensando muito sobre perdão e sobre aceitar as pessoas como elas são: com todos seus defeitos. Venho dizendo a mim mesma que o problema não é sempre o que os outros fazem, mas como eu reajo. Lembro das sessões de terapia, que minha terapeuta me dizia que eu deveria trocar o verbo de reagir para agir. Reagir me coloca em posição de passividade e agir em proatividade.

Hoje uma amiga postou o texto The Goddess As a Spiritual Bypass (A Deusa como um Desvio Espiritual, em tradução livre) que fez com que milhares de luzes se acendessem em minha cabeça. Vou fazer uma tradução dos 3 trechos que achei mais impactantes:

 

Você não é uma Deusa. Você é humana.
E apesar das probabilidades que você está aqui, você não foi concedido com habilidades de outro mundo para reinar sobre a existência, você chegou até aqui apesar das dificuldades e do trauma, e superou as probabilidades uma e outra vez, com o seu conjunto completamente mundano de ossos e órgãos, circunstâncias mortais e defeitos.
Dizer que sou uma deusa é um insulto que desqualifica tudo o que eu sobrevivi, senti e conquistei nessa forma e dimensão desafiadoras.

(…)

Você é um ser com limites que vive dentro de um corpo que está morrendo e nossa missão não é passar nossas vidas acreditando que somos coisas de contos de fadas religiosos, mas abraçarmos essa vida com tudo que ela é, nos enterrar na escuridão e descobrir que ela é feita da mesma coisa que a luz.

(…)

Você não é divina e sim, você é uma fodida, sim você é feia e sim você é linda. Nós somos histórias incompletas procurando nosso caminho de volta para casa, escrevendo nossa própria lenda à medida que caminhamos.
Traga a humanidade de volta a moda.
Não essa merda falsa de deusas.
Seja humilde.
Você é uma maldita humana.

Eu nunca achei que fosse uma deusa. Mas sempre assumi uma posição bem capricorniana, apesar de toda a minha batalha para não ser o estereotipo de meu signo, de que eu estou certa. Quase sempre.

Assumo quando estou errada, mas quase sempre acho que estou certa (olha meu close errado de novo!). Mas eu não sou uma deusa. Já passou da hora de abraçar a escuridão que vive em mim. De aceitar que eu sou mais uma humana fodida, errada e cheia de defeitos. E que as pessoas a minha volta também são.

Reagir é um verbo intransitivo. Não necessita de complementos. É passivo.

Agir também é um verbo intransitivo, mas também pode ser transitivo indireto. Verbos transitivos indiretos são proativos, mas necessitam de outro objeto para complementar sua ação. Sozinho ele não faz nada. Agir me dá a oportunidade de decidir por mim mesma o que fazer e como fazer levando em consideração o outro mas sem esquecer que haverão momentos intransitivos.

E se eu não sou uma deusa, o outro não é o demônio.

Somos todos malditos humanos.

Pratiquemos a tolerância com outros humanos.

Não existe “mas será que…” quando o assunto é violência

“Mas será que ela ia realmente te agredir”?

A relativização da segurança da mulher é um problema constante e até mais grave que a agressão em si: mesmo havendo agressão, a mulher tem que provar que não provocou ou que não entendeu errado o que aconteceu.

Hoje eu passei por uma situação de risco: chegando no trabalho, notei um homem me olhando estranho quando saí do carro. Desses olhares que te arrepiam e te colocam em estado de alerta. Ele foi andando na minha frente e eu, instintivamente segurei a respiração na expectativa. Ele passou pela escada onde eu ia subir e parou. Abaixou para fingir que amarrava o sapato e ficou me olhando de canto de olho. Acelerei meus passos e subi a escada de entrada do meu prédio e fui seguida por gritos de “sua puta! Não adianta fugir” e mais um monte de coisas que não entendi.

Entrei no prédio correndo, sem dar meu “bom dia” diário ao porteiro ou aos meus colegas de trabalho e subi as escadas correndo. Cheguei no escritório tremendo e pensando em como me senti desamparada: as pessoas em volta, que viram a cena, nada fizeram.

Contei o que aconteceu para algumas colegas. Duas delas me acolheram e disseram “ainda bem que não aconteceu nada”. Outra me perguntou “mas será que ele ia fazer alguma coisa com vc mesmo?”. Ia. Claro que ia. A reação dele quando eu subi a escada em vez de passar por ele deixou isso bem claro.

E ela continuou: “ele era negro”? “Era”, respondi.

“Será que vc não ficou com medo por causa disso? Tendência em achar que negro é sempre bandido?” Eu já estava nervosa e agora precisava me explicar para outra mulher. Então juntei meus cacos e respondi:

“Isso não significa nada para mim. A primeira vez que fui seguida por um homem, eu tinha 15 anos e ele era loiro, do olho azul. Ele me seguiu do colégio até em casa e eu fiquei apavorada independentemente da cor da pele dele. Cor de pele não significa nada nessas horas. E digo mais: a gente sabe reconhecer o olhar de uma pessoa apenas olha para vc, uma pessoa que te come com os olhos e uma pessoa que vai te fazer algum mal. Eu estou dizendo que era o terceiro caso”. Encerrei a conversa e saí da sala para recompor meus caquinhos.

Estou escrevendo isso com as mãos geladas e ainda estou tremendo. Não porque passei por uma situação de risco. Essa não é a primeira nem a última vez que isso acontece comigo. Mas porque eu precisei me defender de outra mulher. Precisei me explicar e dizer “não estou sendo racista. Não foi achismo de minha cabeça”.

Relativizar qualquer tipo de agressão é errado. Fui agredida verbalmente e senti que havia algum risco. Isso deveria ser o bastante. Ponto final.

Carta a uma ex amiga

0802

Lembrei que essa semana foi seu aniversário e mesmo ainda me sentindo profundamente magoada com a forma como as coisas aconteceram, me deu vontade de te mandar meus parabéns. Mas você me bloqueou em todas as redes sociais e também no celular, então não tinha como enviar nenhuma mensagem.

A verdade é que eu não mandaria mesmo que você não tivesse me bloqueado. O orgulho é um defeito que eu insisto em carregar com orgulho (pausa para apreciar a irônica redundância).

Então resolvi escrever para você aqui, mesmo sabendo que você não irá ler.

Queria te contar porque eu senti tanta raiva de você naquela época. É que eu sou dessas pessoas reservadas que contam nos dedos das mãos quantos amigos eu tenho. E você fazia parte desse panteão de deusas que tornavam minha vida mais alegre. Até irmos trabalhar juntas.

Você sempre foi geniosa. Mas eu também. Você sempre gostou de fazer o papel de menina frágil e eu sempre me fiz de durona e inquebrável. Você sempre teve medo de se impor. Eu sempre fiz isso com muita facilidade. Você sempre teve facilidade em fazer amigos. Eu sempre fui difícil de me deixar conhecer. A gente era similar em milhares de coisas e nossas diferenças pareciam se complementar e tornar a outra mais forte.

Mas então você tentou me mostrar que não queria algo. E eu não percebi os sinais, que à proposito, hoje são bem claros para mim. Quando você finalmente se impôs, batemos de frente e você passou dos limites.

Você passou dos limites da decência humana, na realidade. Não foi o fato dizer certas coisas da boca para fora que me magoou, mas foi usar o conhecimento de 10 anos de amizade como munição. Foi jogar na minha cara confissões que fiz a uma amiga. Foi enfiar uma faca exatamente onde você sabia que estava ferido.

Eu segui conselhos de algumas pessoas. “Seja humilde “, me disseram. “Você é emocionalmente mais forte que ela. Pessoas mais fortes tem a obrigação de entender os mais fracos”. E eu tentei te entender. Tanto que entendi. Analisei a situação durante um bom tempo e descobri as coisas que eu havia feito errado. “Eu não teria agido dessa forma se fosse outra chefe”, eu falei para mim mesma várias vezes. E quando achei que tudo iria melhorar, você abandonou o barco sem aviso prévio e deixou um desconforto ainda maior. Foi embora na calada da noite, sem nem um tchau e sem nenhuma chance de reparar o buraco no casco do barco.

No meio de minha raiva, te chamei de covarde. Recontei nossa história mil vezes te jogando toda a culpa. Culpa essa que hoje chamo de responsabilidade e que divido de bom grado o peso com você. Mesmo que você não saiba.

Essa semana foi seu aniversário e eu não te dei os parabéns. Mas quero dizer que aprendi muitas lições com tudo o que aconteceu e por isso, lhe sou grata. No meio de toda a confusão, dos seus gritos, das minhas lágrimas escondidas, do meu orgulho ferido e dos meus erros, eu me tornei uma pessoa melhor.

A mágoa ainda está aqui, quietinha esperando o dia que vai deixar de existir. Mas a raiva já secou. E se um dia eu te encontrar na rua não irei virar as costas. Nem irei te dizer os mil desaforos que planejei dizer há 2 anos. Irei sorrir para a ex-amiga que me ensinou uma difícil lição e seguir meu caminho.

Então, cara ex-amiga, deixo aqui registrado meu muito obrigada por ser parte de uma difícil lição de vida. Feliz aniversário! Fique em paz.

Plantando Sementes

170111

Ontem eu estava conversando com um vendedor da empresa que eu trabalho. Ele estava contando que um amigo pediu a moto dele emprestada e me disse “Carro e mulher são coisas que não se emprestam”.
“E carro e mulher são iguais?” – perguntei. Ele fez cara que não entendeu minha pergunta. “Carro é um objeto inanimado que não tem vontade própria. Mulher é ser humano e faz o que ela quiser. Cuidado com a frase machista”.
“É uma amiga que sempre diz isso”. – ele respondeu.
“Sua amiga tb é machista. Mulher é coisa?”
“Não, né?” ele perguntou ainda com dúvida.
“Não é. Mulher é gente”.
“Vc tem razão. Vixe… que frase feia que eu falei”.
“Tb acho”
“Mas foi minha amiga quem me disse”.
“Ela tb é machistinha. Mas isso não te dá o direito de ser tb”.
“É…” e ficou quieto uns 5 minutos antes de mudar de assunto.
Plantei a semente. Espero que nasça. 

A Política, o Ódio e outros sentimentos

161112

“Puta! Vá se foder, Hilary”

“Vadia”!

“Enforque essa a puta”!

“Vá se foder, seu preto”!

“Saia daqui, viadinho”!

“Sieg Hiel”! (expressão alemã que significa “salve a vitória”, usada por Hitler)

Isso são apenas alguns dos comentários dos eleitores de Donald Trump que foram capturados em vídeo. Quando saiu o resultado das eleições americana, minha timeline foi inundada de postagens políticas e apocalípticas: será esse o início do fim do mundo? Aqui no Brasil, nossa realidade não é tão distante do preconceito, machismo, homofobia, transfobia e racismo dos americanos.

Nesse momento, eu não me importo muito com sua posição política. Você pode ter sido contra ou a favor do impeachment, contra ou a favor de Trump. Mas a forma como você lidou com tudo o que aconteceu por aqui nesses últimos meses diz muito sobre você.

Hilary, uma mulher branca, foi xingada. Desrespeitada. Donald Trump, que inclusive confessou quando não sabia que estava sendo gravado de agredir mulheres se livrou de tudo dizendo que era “conversa de vestiário”.

Dilma, uma mulher branca, foi xingada. Desrespeitada. E aqui não consigo nem escolher apenas 1 político homem para fazer o comparativo, de tantos que foram perdoados por serem homens (estupradores, drogados, corruptos… como escolher apenas 1?).

Sua posição política deveria ser a menor das questões.

Mas não é.

Deixando de lado o fato dela ter sido a Presidente, o que por si só exigiria algum respeito, Dilma é uma senhora. Uma mãe, uma avó. Você gostaria que falassem de sua avó como falavam dela? Que fizessem adesivo incentivando seu estupro? Que a chamassem de puta? Que escrevessem em revista de circulação nacional que o problema de sua avó era falta de sexo? Então porque considerou ok escrever isso tudo sobre Dilma? Você pode não concordar com as políticas dela. Pode achar que ela foi uma péssima administradora. Mas faltar com respeito, nunca!

Vou ainda mais longe, você não deveria se chatear com o desrespeito a ela porque você tem avó, ou mãe, ou irmã. Você deveria ter se chateado porque você é um ser humano. E seres humanos deveriam ter empatia e respeito a outros seres humanos.

Donald Trump é casado com uma mulher linda. Que já foi modelo, mas hoje é uma bela, recatada e do lar. Igual a Primeira Dama brasileira. Uma mocinha boba, infantilizada pela mídia e que ocupa um papel figurativo num governo retrogrado, machista, homofóbico, racista e elitista.

A eleição americana e a política brasileira têm algo em comum: a raiva generalizada. Lá na terra do Tio Sam, Trump ganhou ao incitar o ódio às mulheres, negros, gays, latinos, muçulmanos e qualquer um que fugisse do padrão de família branca.

Você percebe a semelhança com o quadro político brasileiro? Fugiu do padrão de tradicional família, será odiado.

Eu não gosto da palavra vitimismo, mas arrisco até a usá-la aqui: “as feministas querem acabar com a tradicional família brasileira”; “os gays querem acabar com a tradicional família brasileira”; “os transexuais querem acabar com a tradicional família brasileira”.

A Tradicional Família Brasileira, que sempre esteve no poder, de repente se viu perdendo espaço (na verdade, eles não perderam nada, mas a gente conquistou alguns espaços que eram exclusividade deles). É preto e favelado entrando na universidade. É mulher sendo chefe de estado. É gay ocupando cadeira no senado. “Eles estão tirando o poder da gente. Vamos ser dominados por mulheres, por negros, por gays, por nordestinos” (aliás, o que o Sul faz com os nordestinos é o que os EUA fazem com latinos).

Sabe que outra sociedade teve um pico de ódio generalizado como esse? A Alemanha Nazista. Bastou que um homem que soubesse manipular as pessoas através do ódio tomasse o poder para que judeus, ciganos, negros e mulheres passassem a ser considerados seres menores.

Não é à toa que o movimento neonazista está crescendo.

Só que lá nos EUA a gente ainda entende, mesmo que não concorde. Aqui no Brasil? Em um país tão miscigenado, com uma mistura tão bonita? Pregar a pureza de raças chega a ser irônico.

O momento político mundial é um whitelash: uma reação da parcela branca da população aos movimentos de empoderamento da parcela não branca. A Europa vive a crise dos refugiados, com brancos gritando para qualquer um que não pertença a sua “raça” para “voltar para a África”. Os eleitores de Trump gritaram “construa o muro”, para manter os latinos fora dos EUA. E Marcela Temer deixou claro que no governo atual, o lugar de mulher é em casa cuidado dos filhos.

Está tudo conectado. Os países são diferentes. Os governos são diferentes. Mas quem quer nos mandar de volta de onde saímos esquece que foram eles que nos procuraram em primeiro lugar. Foram os Europeus que decidiram explorar a África, o Oriente e as Américas. Foram eles os responsáveis por nos mostrarem que eles estavam ali. Foram eles os primeiros imigrantes. Agora não dá mais para voltar atrás.

Foram os homens com sua sede de poder e guerra que forçaram as mulheres a entrarem no mercado de trabalho durante a Segunda Guerra Mundial. Ou a gente trabalhava, ou não haveria mão de obra, já que os homens estavam no front de batalha. Agora não dá mais para voltar atrás.

Seja sua visão política liberal ou conservadora ou sua visão econômica capitalista ou socialista, o que o mundo precisa nesse momento é tolerância. Não dá mais para voltarmos atrás e mudar o que já foi. O que precisamos agora é caminhar para frente e em direção a um futuro melhor.

Como diria Pitty, “o negro não vai voltar para a senzala nem a mulher para a cozinha nem o gay para o armário”. Nós estamos aqui e vamos continuar aqui. O ódio não vai vencer.