Vamos falar sobre a dislexia?

Eu amo a Jout Jout! Amo de verdade! Ela posta conteúdos legais e interessantes de forma bem acessível que dá para todo mundo entender e hoje me deparei com um vídeo sobre dislexia!

Porque eu estou feliz? Porque eu tenho dislexia, mas só descobri quando tinha 26 anos que tenho um grau leve a moderado.

E o que é dislexia?

O vídeo da Jout Jout explica direitinho (tá no final desse post), mas se você não tiver como ver agora, vou explicar rapidinho. A Associação Brasileira de Dislexia define dislexia como um transtorno específico de aprendizado de origem neurobiológica, caracterizada por sua dificuldade no reconhecimento da palavra.

Na dislexia, alguns neurônios são doidinhos e resolvem inverter as informações que você recebe. Por exemplo, existe uma marca de suco de uva integral chamada Casa de Madeira, mas as primeiras vezes que eu vi o rotulo, meu cérebro entendeu Madeira de Casa e precisou que minha mãe me falasse que eu estava invertendo para eu perceber. Ou quando escrevo e corretor ortográfico marca uma palavra como errada. Eu vou levar alguns segundos até identificar que as letras estão invertidas. Que eu escrevi “biníqui” eu vez de “biquíni” (escrevi isso hoje, numa mensagem para uma amiga).

Outra dificuldade que eu tenho é soletrar palavras. Há pouco tempo, minha irmã soletrou a palavra “picolé” para mim, para meu sobrinho de 4 anos não entender que ela queria que eu fosse comprar. Fiquei olhando para ela como se ela tivesse falado em alemão. Depois caímos na risada quando finalmente escrevi na areia as letras que ele disse em voz alta.

Eu fui alfabetizada por minha mãe, porque o método da escola não funcionava comigo. E foi ela quem me ajudou durante quase todo período escolar, porque eu simplesmente não entendia o material se eu lesse sozinha (foi graças a ela que descobri que ler em voz alta me ajuda).

O ballet também foi essencial para meu desenvolvimento porque além de disciplina, eu aprendi noções espaciais e descobri que meu corpo aprende mais rápido que meu cérebro. Minha memória é cinestésica.

Eu falo com as mãos. Faço movimentos quando quero lembrar de alguma coisa e uso a música como um fio condutor das coisas que aprendo. Descobri sozinha que ouvir as pessoas falando me ensina muito mais do que ler.

Eu nunca me achei burra porque meus professores e meus pais nunca me disseram isso. Mas minhas notas na época do colégio eram medíocres. Só na faculdade que eu tive a liberdade de descobrir minha maneira de aprender.

Nessa época, meus cadernos eram compostos de pequenas anotações que não tinham sentido para mais ninguém. Anotar o conteúdo que o professor escrevia no quadro me confundia. Então passei a anotar uma fala isolada do professor e alguma coisa que aquilo me lembrava (uma história, um desenho…) e só quando eu ia estudar em casa que eu juntava aquilo com a matéria. Essa era a única maneira de fazer os livros terem sentido. Meus cadernos eram coloridos, cheios de desenhos e minhas notas começaram a refletir essa nova forma de aprender.

E isso é o que mais interessa: a forma como o disléxico aprende. Esse método cartesiano das escolas clássicas não funciona para a gente. E nem adianta insistir. Por isso que fui uma aluna tão mediana no colégio e me destaquei na faculdade (onde tive liberdade para seguir minha maneira de aprender).

E como existem várias formas e graus de dislexia, nem tudo que funciona para um, irá funcionar para outro. A Ana Paula Xongani, convidada de Jout Jout desse vídeo, falou de diversas coisas que eu me identifiquei e outras que sou o oposto. Como estudar com música de fundo. Ela disse que é impossível para ela, mas desconfio que meu histórico no ballet me ajudou a tornar isso uma facilidade para mim.

Eu sempre brinquei que tenho 2 cérebros separados na minha cabeça porque enquanto eu estudo uma coisa, tem uma região no meu cérebro ocupada com outra. E a música funciona justamente para neutralizar essa segunda voz. Enquanto eu lia em voz alta o conteúdo que estava estudando (preciso ouvir o que estou lendo), a música criava um barulho de fundo para me isolar do resto do mundo. Até hoje sou assim. Trabalho com fone de ouvido e só desligo a música quando vou lidar com números (porque a probabilidade de eu trocar a ordem deles é imensamente maior).

O engraçado é que algumas pessoas tomam susto quando descobrem que sou disléxica. Porque acham que disléxicos são burros. E, de fato, quando eu preciso fazer uma prova escrita, a probabilidade é que meu resultado não seja dos melhores. Mas isso não me impediu de fazer 2 faculdades e uma pós-graduação. Nosso cérebro simplesmente funciona diferente e a gente tem que criar novos formatos para antigas questões.

E, se você me perguntar, esse é o ponto positivo da dislexia. Somos diferentes e nossos neurônios são doidinhos. E essa necessidade de inventar novos formatos de aprender nos torna pessoas mais criativas. Faz com que a gente pense forma da caixinha. E vamos combinar: o mundo precisa de pessoas que fujam do convencional, não é mesmo? Tá bom? Então tá bom (roubando o jargão da Jout Jout pra fechar esse post).

Nota: a palavra “caixinha” na imagem desse post está escrita errada de propósito. 😉

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Eu tenho medo

Parece que a morte de Marielle foi a gota d’água que faltava no balde muita gente. Estou vendo um país em comoção como há muito não via. Nem no impeachment de Dilma eu vi tanta comoção. Na ocasião teve manifestação, mas na minha timeline tinha gente contra e a favor.

E apesar de ter um punhado de imbecis rindo da morte da Marielle, minha bolha social está 100% chocada (algo que eu nunca havia experimentado: todo mundo do meu convívio com uma mesma opinião).

Já ligaram a execução da vereadora com uma chacina em SP, em 2015. Segundo o Jornal Folha de SP, a munição usada pertence ao mesmo lote usado na chacina de Osasco e Barueri em agosto 2015, que condenou 3 PMs e um guarda civil. As investigações ainda estão em andamento, mas o nosso imaginário conecta sua morte nessas condições com tantos outros ativistas dos Direitos Humanos que foram executados no país: ao todo, foram 24 assassinatos de lideranças políticas em 4 anos! De líderes quilombolas na Bahia à vereadora que lutava contra a brutalidade da polícia nas favelas do Rio.

Juntamos a isso a fala do General Eduardo Villas Bôas, que em fevereiro desse ano disse que era necessário “dar aos militares a garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade” (em relação a intervenção militar no Rio de Janeiro) e o que pensamos imediatamente?

Já estamos em ditadura?

Militar ainda não. Mas sim, já vivemos em ditadura.

Marielle Franco era a relatora uma comissão composta por quatro pessoas, cujo objetivo era monitorar a intervenção federal no Rio de Janeiro. Ela era crítica da intervenção federal e foi executada 4 dias após denunciar abusos policiais.

Assassinar quem denunciava maus tratos era pratica corriqueira da Ditadura Militar. Isso é algo tão recente em nossa história que meus pais ainda usam o ditado “eu tinha um amigo que foi achar e nunca mais acharam ele”. Porque a gente não tem direito à opinião na Ditadura. A gente abaixa a cabeça e segue a vida sem olhar para frente com medo de alguém achar que estamos fazendo algo errado.

Eu tenho medo do nosso futuro.

Mas eu também tenho esperança. Porque se a comunicação era controlada na ditadura de algumas décadas, hoje temos uma população com ferramentas que não existiam há 30 anos.

Sim, a violência está naturalizada. Mas se ela tivesse morrido por causa de um assalto, é provável que a comoção popular fosse infinitamente menor. O que não foi o caso.

Marielle representava um monte de gente que não tinha voz. Ela estudou, saiu da favela e conquistou seu lugar ao sol com muita luta. Ela era a personificação da meritocracia que o homem branco adora balançar na cara de quem não conseguiu vencer as probabilidades.

Ela engloba a luta de um monte de gente e ainda por cima tem a simpatia de uma parcela da população que geralmente não liga muito para mulher negra (e da favela e lésbica e mais diversos outros ‘e’s).

E mesmo vivendo na época da dicotomia, onde tem um lado aplaudindo e comemorando a morte de mais uma “favelada defensora de bandido”, temos um grupo cada vez maior de pessoas que não vai aceitar a injustiça. A ditadura imprimiu na gente a não aceitação da morte de alguém por causa de suas convicções políticas.

E o que estou vendo são pessoas com visões políticas diferentes falando a mesma língua. Porque seja você de direita ou de esquerda, não dá para aceitar a execução de uma pessoa por suas convicções políticas.

Então, sim, eu tenho medo. Mas eu também tenho esperança.

 

Não quero flores

Já me chamaram de histérica porque eu aumentei minha voz.
Já me chamaram de maluca porque eu discordei.
Já me chamaram de reacionária porque não aceitei piada de estupro.
Já me chamaram de problemática porque não deixei o cara beijar a mulher desconhecida a força.
Já me chamaram de “puta” porque corri antes da agressão.
Já me perseguiram de dentro de um ônibus até a porta de minha casa.
Já me disseram para me fazer de burrinha porque mulher inteligente assusta homem.
Já me empurraram porque eu dei risada com um amigo.
Já duvidaram que o “tio” passou a mão em mim quando eu tinha 7 anos.
Já questionaram se o supervisor não estava só brincando quando me alisou durante o estágio.
E tem gente que ainda acha que o dia de hoje é sobre flores.

Eu tava era gata mesmo!

Existe algo de muito especial em ser quem somos, sem nos escravizarmos com padrões de beleza. Já escrevi aqui algumas vezes sobre minha luta diária para assumir meu corpo como ele é. Sobre deixar que a padrão de modelo capa de revista não influencie a minha percepção de beleza.

Esse ano, pela primeira vez em uns 10 anos, resolvi dançar com a barriga de fora por opção (só dançava de barriga de fora quando o figurino do grupo não permitia usar uma segunda pele e sempre me sentia desconfortável ao extremo).

E não foi pelo fato de eu ter emagrecido 5kg esse ano, apesar disso ter ajudado. Foi ter ouvido uma médica me dizer explicitamente que estou dentro de meu peso saudável, que emagrecer a partir de agora é questão estética. Levei uns 6 meses repetindo isso até processar a informação: “é estética. Eu sou saudável”.

Então, dia 8 de dezembro, coloquei a barriga de fora e subi no palco. E não foi apenas grupo que dancei assim: eu fiz um solo. E confesso que me achei linda. Quando eu me olhei no espelho, meus pneuzinhos foram a última coisa que notei. Eu me achei foi muito gata mesmo, sem falsa modéstia.

Dancei 5 coreografias, entre grupos, solo e dupla. Dancei na frente do palco. Dancei com um holofote me iluminando e a atenção da plateia toda voltada para mim enquanto eu solava. E a sensação de liberdade foi incrível. Eu me senti plena não apenas porque solava, mas porque fiz isso assumindo que não tenho corpo de capa de revista e que mesmo assim eu sou linda e minha barriga também.

Quando terminamos, fui perguntar as minhas amigas e a minha família o que eles haviam achado. “Linda”. “Plena”. “Nunca te vi tão sensual”.

“Porque você foi inventar de usar aquela roupa branca? Te deixou mais gorda”

Eu sorri.

O comentário dela não me incomodou. O que me incomodou foi minha reação. Foi não ter respondido. E pior: for ter sorrido ao comentário non-sense. Mesmo sabendo que a pessoa não disse por mal ou que ela não se incomodaria com minha cortada (provavelmente ela iria rir e a vida continuaria).

Acho que eu não respondi porque a voz de minha irmã é bem forte quando ela diz “nunca comente sobre o corpo de outra pessoa. Isso irá reduzi-la a sua aparência e por mais linda que essa pessoa seja, ninguém merece ser reduzida a sua aparência”.

Acho também que eu não respondi porque eu conheço muito bem a pessoa que disse isso e eu sei que ela é non-sense e mete os pés pela mãos o tempo todo. Vira e mexe dou uns beliscões nela para ela não falar besteira.

Mas, amiga, eu estava gata. Foda-se o padrão de beleza. Foda-se você ter me achado “mais gorda” e foda-se também o seu “mais gorda”. Eu não estou gorda. Eu estou gostosa. Entendeu?

Arte & Censura: Sobre a Exposição QueerMuseu

Se vc pesquisar no Google, vai achar centenas de milhares de respostas possíveis para a pergunta “O que é arte”. O consenso parece ser que arte é a criação consciente de algo significativo a partir de habilidades e da imaginação. Um dos conceitos de arte que eu mais gosto é que ela é aquilo que nos faz sentir algo. Seja felicidade ou admiração, seja desconforto ou raiva.

Arte pode tudo (desde que respeitemos alguns limites como os Direitos Humanos). A arte pode servir para ser admirada, decifrada, pensada ou para iniciar uma conversa. Ela toca em temas usuais como fotografias de paisagens e temas polêmicos como religião ou morte. Mas o que determina se algo é arte ou não? Uma das possíveis formas é analisando sua relevância social.

E aqui me vejo fazendo o papel da Advogada do Diabo quando o assunto é a mostra “QueerMuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira”. A exposição foi censurada e encerrada 1 mês antes do prazo por levar temas polêmicos ao Santander Cultural em Porto Alegre.

As primeiras imagens que vi me trouxeram desconforto e até certa repulsa. Sim, chamar um menino de “criança viada” é muito feio. E aquele quadro que tem uma ilustração de um homem fazendo sexo com um animal é o cúmulo da bizarrice, na minha humilde opinião de ativista vegana. Mas não. Eu não acho que a exposição merecia ser censurada e fechada.

E antes que joguem pedras em mim, deixa eu explicar o motivo: vc percebeu como nos últimos dias as pessoas têm falado sobre pedofilia, zoofilia e respeito às diferenças usando a exposição como base?

Essa é sua contribuição social. Ela é feia. Desconfortável. Causa ânsia. Mas tem um proposito. Eu não curti as imagens que vi da mostra do Santander, mas não vejo o porquê da censura.

No meu papel de reles mortal, não me sinto gabaritada para criticar a arte. Mas no meu papel de cidadã, me vejo gabaritada para criticar a censura. Somos uma democracia recente, que viveu 2 décadas em Ditadura Militar e encontrou liberdade há apenas 3 décadas. Somos um país em que expressões como “tinha um amigo que foi achar e nunca mais acharam ele” ainda é repetida, resquício da época em que criticar o Governo tinha a pior das consequências.

Vc pode, assim como eu, não ter gostado de algumas imagens da exposição. Mas pedir a censura? Será que vc não vê o perigo disso?

Estamos em um país teoricamente laico e com liberdade de expressão, certo? Certo. E se eu tenho liberdade de expressão, eu posso fazer uso dela da forma como eu achar melhor. Sabendo, claro, que irei sofrer as consequências dessa liberdade caso eu fira algum artigo de nossa Constituição.

Quando um artista apresenta uma obra, ela deixa de pertencer a ele e passa a pertencer ao espectador, que irá resignificá-la a partir de suas experiências de vida. Quando vi a obra do “criança viada”, achei feio porque pensei no bullying que crianças gays enfrentam todos os dias. Outras pessoas viram apologia à pedofilia. As duas interpretações estão corretas. Não existe certo ou errado na arte. Em vez de censurar a obra, ela deveria ter sido discutida. Seja sobre bullying, pedofilia ou homossexualismo.

A exposição tinha mais de 200 obras. Eu vi apenas meia dúzia das que foram parar na internet (as mais polêmicas). Acho que arte tem que ter esse papel de polemizar mesmo. De arrancar as pessoas de suas zonas de conforto e fazê-las questionar suas crenças. Vc pode ter gostado. Vc pode ter odiado. Vc pode ter ficado indeciso. Mas censurar a exposição abre as portas para um perigoso precedente.

Crítica de Filme: Onde Está Segunda?

Se o filme tivesse sido lançado há uns 5 anos, eu estaria empolgadíssima com o thriller sci-fi que tem 7 irmãs gêmeas como protagonistas.

Mas vivemos num mundo pós Orphan Black, em que Tatiana Maslany interpretava as mulheres clones com maestria e a produção e a direção a permitiam explorar toda a complexa personalidade de cada uma delas, com nuances e traços que iam muito além do arquetípico clichê das personagens femininas superficiais de Hollywood.

E acima de tudo, estamos em 2017, num mundo onde o feminismo já nos explicou a importância da representatividade feminina pela mídia. Então por mais que o filme tenha boa cenas de ação num roteiro previsível, seus problemas são de uma seriedade que não podemos mais ignorar.

Se vc ainda não viu o filme, vá assistir antes de passar desse ponto. Este post contém spoilers.

Produzida pela Netflix, a história se passa em um futuro não muito distante, em que a capacidade de produção de alimento não é suficiente. Como solução, os cientistas criam alimentos transgênicos de rápida produção e em maior quantidade, mas que tem um efeito colateral inesperado: começam a nascer gêmeos, o que piora a situação. O Governo então instaura a lei do filho único e os filhos excedentes passam por processo de criogenia para serem acordados quando o problema populacional for resolvido.

Nesse mundo, nascem 7 irmãs gêmeas, que são criadas escondidas pelo avô. Cada uma tem um nome da semana e só pode sair na rua no dia da semana com seu nome. Lá fora, todas assumem a mesma personalidade e vivem a mesma vida.

Domingo é a boa moça das 7 irmãs. Ela está saindo da igreja quando a vemos pela primeira vez. Segunda é a certinha trabalhadora. Terça é a frágil doentinha que precisa de ajuda até para pentear o cabelo. Quarta é a esportista e lutadora. Quinta é a rebelde que odeia tudo. Sexta a nerd que entende de computador e tecnologia e se descreve como “não sou ninguém”. Sábado é a festeira que adora beber. Não existe complexidade. É tudo fácil de entender.

Orphan Black se fortalece nas cenas em que as clones interagem entre si. Onde Está Segunda? começa com esse mesmo ritmo, mas logo se perde na ação e a interação entre as irmãs se torna frágil o suficiente para tornar o final do filme previsível.

Noomi Rapace (Prometheus e a versão sueca da trilogia Os Homens que Não Amavam as Mulheres), que dá vida às irmãs, fez um excelente trabalho com o pouco que lhe foi oferecido. Mas mesmo uma atriz capaz não poderia transformar um roteiro cheio de clichês em um filme formidável.

Um dia, Segunda desaparece. Na busca por ela, as irmãs começam a ser caçadas pela agência que controla a lei do filho único. Em meio de cenas de ação bem-feitas, as irmãs vão morrendo. A cena da morte de Domingo é até interessante: quando percebe que está morrendo, Domingo diz que desistiu e uma das irmãs responde “você deveria ser a que tem fé”. É como se os roteiristas do filme piscassem o olho para o espectador e dissessem: “eu sei que a gente está fazendo um clichê”. Quase faz com que o filme seja desculpado. Quase.

Então entra o interesse romântico. Num roteiro previsível, Segunda está apaixonada por um agente de Alocação de Crianças. Outro clichê: ele é um bom rapaz, que não sabe nada sobre a vida secreta da amada e que acredita com uma confiança beirando a infantilidade que a agência está fazendo o melhor trabalho possível e que as crianças serão acordadas num futuro próximo.

Sabe aquela história da coincidência que salva toda a história? Pois bem. Graças a esse bom moço que descobre que a agência não é magnânima e que sua amada foi sequestrada e possivelmente assassinada, as irmãs conseguem acesso ao serviço de alocação de crianças para desmascarar Nicolette Cayman (Glenn Close), a manda-chuva fodona que tem ambição de controlar o governo. E essa é minha maior decepção com o filme.

Tommy Wirkola (conhecido pela péssima adaptação da história de João e Maria de 2013) tem uma direção unilateral e monótona: preto é preto, branco é branco e não existem muitos tons de cinza entre eles. Glenn Close tirou leite de pedra ao mostrar duas nuances de Cayman: dura na lei, mas mostra um certo remorso com o que faz com as crianças. Na hora em que a verdade é revelada (as crianças não passam por criogenia, mas são assassinadas) em vez de assumir suas ações, Cayman tem um faniquito digno de filmes da década de 50 em que a mulher frágil não sabe lidar com fortes emoções e desmaia.

Isso mesmo, senhoras e senhores. A chefe fodona da agência que manda assassinar crianças e caçar as irmãs gêmeas desmaia.

Logo em seguida, para piorar, ela tem uma crise histérica e confessa tudo, na frente que várias pessoas, culpando tan-tan-taaaaaaaaan… (suspense desnecessário) Segunda!

Sim! Segunda está viva e estava trabalhando com Cayman para acabar com as irmãs e ela poder viver a vida dela.

“Como assim?”, você me pergunta. Sabe o que levou a certinha trabalhadora que curte sexo BDSM (Wirkola não teve tempo para aprofundar as personagens, mas teve tempo para mostrar que Segunda teria de dado bem com Christian Grey) a trair as 6 irmãs? O amor. Ah, o amor!

Sabe o agente bom moço? Ela estava apaixonada e precisava viver com ele. Então ela trama contra as irmãs. No finalzinho, a gente descobre que Segunda estava grávida de gêmeos e queria que seus filhos vivessem sem se esconder. Mas ela teve seu castigo e morreu e os bebês foram gerados num tanque, com as duas irmãs sobreviventes admirando os gêmeos ao lado do agente bom moço.

Então é isso. Não tem mais jeito. Acabou. Boa sorte.

Para a mídia, somos mulheres tolas, estereotipadas e superficiais. Podemos até ter atitudes “de macho”, mas no momento em que tem homem no meio, vamos, sim, trair nossas irmãs. Afinal, mulher é tudo cobra.

Não é possível que em meio a tudo que se tem falado sobre representatividade, sobre construção de personagens femininas complexas ainda existam produções que passem essa mensagem.

Não é possível que num mundo pós Orphan Black, Scandal, How to Get Away With Murder, Big Little Lies, Castle, House of Cards, Game of Thrones, Empire, Orange is the New Black, The Handmaid’s Tale e tantos outros com personagens femininas complexas ainda considerem filmes assim aceitáveis.

O conceito do filme é interessante, com a possibilidade inicial de trabalhar e desenvolver questões ligadas a personalidade, identidade, vida familiar e até cenas de espionagem dignas de filmes como 007 dentro de um universo distópico. Mas Direção e Roteiro falham ao recorrer aos clichês da violência gratuita. O resultado é um filme previsível.

E sem a construção de personagens fortes, a única coisa que sobra ao final é o desconforto de ver na tela a repetição de um clichê que há muito já deveria ter sido extinto: o da mulher que irá trair suas irmãs por causa de macho.

Em pleno 2017, isso não é mais aceitável.

Agir: Verbo Transitivo Indireto

Essa última semana eu venho pensando muito sobre perdão e sobre aceitar as pessoas como elas são: com todos seus defeitos. Venho dizendo a mim mesma que o problema não é sempre o que os outros fazem, mas como eu reajo. Lembro das sessões de terapia, que minha terapeuta me dizia que eu deveria trocar o verbo de reagir para agir. Reagir me coloca em posição de passividade e agir em proatividade.

Hoje uma amiga postou o texto The Goddess As a Spiritual Bypass (A Deusa como um Desvio Espiritual, em tradução livre) que fez com que milhares de luzes se acendessem em minha cabeça. Vou fazer uma tradução dos 3 trechos que achei mais impactantes:

 

Você não é uma Deusa. Você é humana.
E apesar das probabilidades que você está aqui, você não foi concedido com habilidades de outro mundo para reinar sobre a existência, você chegou até aqui apesar das dificuldades e do trauma, e superou as probabilidades uma e outra vez, com o seu conjunto completamente mundano de ossos e órgãos, circunstâncias mortais e defeitos.
Dizer que sou uma deusa é um insulto que desqualifica tudo o que eu sobrevivi, senti e conquistei nessa forma e dimensão desafiadoras.

(…)

Você é um ser com limites que vive dentro de um corpo que está morrendo e nossa missão não é passar nossas vidas acreditando que somos coisas de contos de fadas religiosos, mas abraçarmos essa vida com tudo que ela é, nos enterrar na escuridão e descobrir que ela é feita da mesma coisa que a luz.

(…)

Você não é divina e sim, você é uma fodida, sim você é feia e sim você é linda. Nós somos histórias incompletas procurando nosso caminho de volta para casa, escrevendo nossa própria lenda à medida que caminhamos.
Traga a humanidade de volta a moda.
Não essa merda falsa de deusas.
Seja humilde.
Você é uma maldita humana.

Eu nunca achei que fosse uma deusa. Mas sempre assumi uma posição bem capricorniana, apesar de toda a minha batalha para não ser o estereotipo de meu signo, de que eu estou certa. Quase sempre.

Assumo quando estou errada, mas quase sempre acho que estou certa (olha meu close errado de novo!). Mas eu não sou uma deusa. Já passou da hora de abraçar a escuridão que vive em mim. De aceitar que eu sou mais uma humana fodida, errada e cheia de defeitos. E que as pessoas a minha volta também são.

Reagir é um verbo intransitivo. Não necessita de complementos. É passivo.

Agir também é um verbo intransitivo, mas também pode ser transitivo indireto. Verbos transitivos indiretos são proativos, mas necessitam de outro objeto para complementar sua ação. Sozinho ele não faz nada. Agir me dá a oportunidade de decidir por mim mesma o que fazer e como fazer levando em consideração o outro mas sem esquecer que haverão momentos intransitivos.

E se eu não sou uma deusa, o outro não é o demônio.

Somos todos malditos humanos.

Pratiquemos a tolerância com outros humanos.