Para meu pai

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Eu me lembro de uma vez quando eu tinha uns 7 ou 8 anos cheguei em casa contando que um coleguinha da escola havia me batido. Eu lembro de meus pais conversando como eu deveria resolver a situação porque minha mãe achava que eu deveria falar para a professora (aquele menino sempre me batia) e meu pai achava que eu devia bater de volta. Minha mãe disse que se eu fizesse isso, a professora iria brigar comigo. Mas meu pai respondeu:

“Se ela brigar com você por causa disso, pode dizer que fui eu quem deixou. E se você ficar de castigo, eu mesmo vou lá e brigo com a professora”.

Claro que minha mãe ficou furiosa, mas meu pai seguiu com a lição e me ensinou como machucar o menino (chutando entre as pernas dele).

No dia seguinte, na fila do recreio na escola, não deu outra. O menino veio correndo até mim, puxou minha Maria Chiquinha e me deu um tapa. Eu, no alto de minha autoridade de uma menina de 8 anos que o pai autorizou bater de volta, lembro de ter alertado para ele não me bater de novo porque eu ia bater também. O moleque, claro, me deu outro tapa. Não deu outra: dei um chute no meio das pernas do menino e repeti o que meu pai me ensinou: “Em mulher não se bate nem com flor”. E saí seguindo a fila enquanto o menino estava caído no chão.

Eu lembro que naquele dia eu fui o orgulho de meu pai. Porque “filha minha tem que saber se defender”.

Ouvi várias frases assim durante minha vida. Até um dia em que dei uma de minhas respostas a meu pai e ele ficou retado. Depois que a poeira baixou, ele deu risada e disse “Prefiro que você aprenda a ser desaforada aqui em casa do que deixar que qualquer pessoa monte no seu pescoço”.

Esse é meu pai.

A gente tem brigas homéricas. Ele tem um “quê” machista que me irrita e respostas sarcásticas que às vezes eu odeio (ham-ram… eu aprendi meu sarcasmo com ele…). Mas esse foi o modelo de pai eu tive e que me ensinou muito. Ele está sempre do meu lado. Como da primeira vez que bebi tequila numa festa e fiquei tão fora do ar que chutei uma garrafa quebrada e cortei meu pé. Acordei ele às 3 horas da manhã para me pegar e, em vez de levar bronca, ouvi um “Ferimento de guerra. Próxima vez use sapato fechado” (e de quebra passei a ouvir dele um “Você tem certeza que vai sair de sandália?” durante quase 1 ano).

Pais não precisam ser perfeitos mas precisam ser presentes. E o meu sempre foi. Mesmo quando ele passava 1 mês viajando a trabalho ligava todos os dias para falar com a gente. Meu pai sempre foi aquele modelo de paizão, orgulhoso das filhas.

Eu tenho milhares de histórias com meu pai. Entre brigas, risadas, brincadeiras e até segredos (que eu nem preciso me preocupar porque ele com certeza nem lembra!). E essa é a prova que meu pai é um pai. E não um provedor. Então, se você é um pai presente também, parabéns! Ajude sua filha a ser uma mulher retada também!

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Sobre ser mãe

Eu, minha mãe, minha irmã e meu afilhado
Eu, minha mãe, minha irmã e meu afilhado

Há alguns dias, estava conversando com duas colegas de trabalho sobre a maternidade, uma grávida e a uma recém casada. Não me lembro bem como a conversa começou, mas a gente chegou nesse ponto:
Recém casada: “Quero só ver quando você engravidar”
Eu: “E quem te disse que eu quero engravidar?”
Grávida: “Porque, Ju?”
Recém casada: “Quando fala assim, vai ter uns 4 filhos”.
Eu: “Posso até ter 4 filhos, mas não vou engravidar”
Grávida: “Oxe! Como é isso?”
Eu: “Eu quero adotar”.
Eu nunca havia falado sobre isso com ninguém além de minha mãe e minha irmã. Essa é uma decisão muito pessoal para ser discutida, mas naquele momento eu queria ver a reação. Eu estava ali, solteira e sem namorado, dando uma declaração bombástica para duas mulheres tradicionalistas. E a reação delas foi a esperada: ficaram me olhando como se estivessem tendo um contato imediato com o ser de outro planeta.
Depois disseram algumas coisas esperadas até terminarem com a pérola “Mas o amor de uma criança adotada não é o mesmo que o amor que a gente sente por um filho que nasce de nossa barriga”. Ok! Meu experimento funcionou, porque logo em seguida perguntei porque não e em vez de me responder, a grávida me perguntou porque eu penso dessa forma.
Minha resposta:
Porque eu vejo o amor que minha mãe tem por mim. Porque até quando a gente briga, se eu tiver um problema eu sei que ela vai me ajudar. Porque até quando eu estou errada e ela me diz daquele jeitinho que eu odeio, eu tenho certeza que ela nunca vai me abandonar. Mesmo eu tendo 30 anos e sendo independente, eu sei que posso contar com minha mãe. Eu quero ter filhos e viver essa experiência a partir da outra perspectiva, mas quando eu vejo relato ou fotos de crianças órfãs, meu coração se parte em mil pedaços.

Então, não. Eu não quero colocar uma criança no mundo. Eu quero uma criança que, pelo motivo que seja, não tem uma mãe como eu tenho, Quero ensinar a essa criança o que é amor incondicional. Quero amar um serzinho em formação como minha irmã ama meu afilhado e como minha amiga ama minha afilhada porque toda mini-pessoa merece ter uma mãe e já que eu não posso adotar todas as crianças sem mãe no mundo, pelo menos uma ou duas eu posso amar incondicionalmente e mostrar uma vida melhor.

Porque eu posso não ser mãe ainda, mas aprendi direitinho a lição com a minha!