Machismo Olímpico

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Não estou acompanhando as Olimpíadas. Não porque eu não quero, mas meu horário é bem apertado. Vou trabalhar às 8hs e depois do trabalho ainda vou para academia ou aula de dança, dependendo o dia da semana.

Mas uma coisa tem me chamado atenção: como as mulheres parecem reinar absolutas nas provas.

Meu feed de notícias do Facebook está recheado delas. Fala-se na jogadora Marta, da seleção brasileira feminina de futebol. Em Rafaela Silva, ouro na prova de Judô. Do pedido de casamento da voluntária Marjorie Enya para a jogadora de rúgbi brasileira Isadora Cerullo. Tem ainda as ginastas Lee Eun-Ju, da Coreia do Sul, e Hong Un Jong, da Coreia do Norte, que quebraram o tabu e fizeram um selfie juntas durante o treino.

Essa definitivamente parece ser a Olimpíada das Mulheres.

Mas nem tudo são flores e medalhas…

A Olimpíada das Mulheres também tem seu lado negro. Mesmo quebrando recordes, como a nadadora húngara Katinka Hosszu, que bateu o recorde mundial dos 400 metros, a imprensa ainda protagoniza os homens, deixando as mulheres como meras figurantes de suas próprias histórias.

Quando Katinka subiu ao pódio para receber sua medalha de ouro, a televisão mostrou seu treinador (e marido), como de costume. O comentarista da NBC, Dan Hicks, fez um comentário infeliz e machista: “está aí o homem responsável”, retirando de Katinka o mérito de sua vitória.

Dan Hicks deu uma declaração ao Chicago Tribune depois de ter sido duramente criticado nas redes sociais, dizendo que é impossível falar sobre a vitória da nadadora sem mencionar seu treinador. De fato, um treinador tem crédito por melhorar a performance de um atleta, mas eu não me lembro de ninguém ovacionando o treinador de Michael Phelps…

Por falar no Chicago Tribune, o jornal foi o centro de uma gafe quando classificou Corey Cogdell, ganhadora do bronze na categoria de tiro ao prato, como “esposa do jogador do Bears”. Seu nome, para a publicação, não era importante. Muito menos o fato dela ter conquistado a mesma posição nas Olimpíadas de Pequim. Mas o fato dela ter “enlaçado” o jogador americano do Chicago Bears, Mitch Unrein? Digno de reconhecimento. #sqn

Mas o lado mais negro das Olimpíadas, até o momento, ficou reservado para Joanna Maranhão. Após a nadadora brasileira ser eliminada nos 200 m borboleta, seu Facebook foi invadido com mensagens de ódio, chegando ao cúmulo de pessoas desejando que ela fosse estuprada. A nadadora revelou em 2008 que sofreu tentativa de estupro de um ex-treinador, o Eugênio Miranda, então o ler os comentários em sua fanpage teve um sabor ainda mais amargo para a atleta.

Esses são apenas 3 entre inúmeros casos de machismo durante o evento Olímpico. Ainda somos retratadas pela mídia como “mulheres bonitas, mas que são boas jogadoras”, “beldades do esporte” ou “cardápio variado”. Basta fazer uma pesquisa no Google para se deparar com manchetes como essas.

E cabe a nós, mulheres, se rebelar e mostrar o erro. Reclamar faz parte de nossa luta diária.

Até que o dia os atributos físicos sejam menos importantes que nossas habilidades.

Existe “Peleumonia”

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Sabe aquele cara que passou a mão na moça e gemeu em seu ouvido quando ela estava voltando para casa depois do trabalho?

Ele também não teve a intenção de ofender, doutor.

Sabe aquele cara que reclamou do favelado que entrou na Universidade Federal?

Ele também não teve a intenção de ofender, doutor.

Sabe aquele outro cara que fez piada do gordo no barzinho?

Ele também não teve a intenção de ofender, doutor.

E aquele outro que soltou uma piada homofóbica para o colega gay do trabalho?

Ele também não teve a intenção de ofender, doutor.

Sabe aquele cara que ridicularizou o outro que falava “peleumonia”?

Ele também não teve a intenção de ofender, doutor.

E aquele outro que disse que nordestino é tudo preguiçoso?

Ele também não teve a intenção de ofender, doutor.

É que mundo está chato mesmo.

Chato para vocês que estão recebendo bronca por algo que até outro dia era “normal”.

Chato para vocês que estão sendo forçados descontruir toda uma cultura de humilhação.

Chato para vocês que estão sendo forçados a entender que todo ser humano merece respeito.

Chato para vocês que estão vendo mulheres, gays, trans, gordos, nordestinos, pretos e favelados se empoderarem.

Chato para vocês que tem uma autoestima tão baixa que precisam rebaixar outra pessoa para se sentirem melhor.

Chora, não. Aprender dói mesmo.

Mas depois você irá se tornar uma pessoa melhor, doutor.

Nosso “mimimi” é nossa maneira de melhorar o mundo.

 

 

 

Amor e outros jogos

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Eu tentei usar o Tinder quando ele ainda era moda (ou ainda é?). Tentei usar alguns outros apps de relacionamento para, quem sabe, conhecer uma pessoa legal. Mas logo percebi que não sairia nada dali.

Não porque os caras que usam esses apps geralmente querem algo casual demais para meu gosto, mas porque eu não sei jogar. Esqueceram de me avisar que app de relacionamento é, na verdade, um joguinho de celular.

É mais ou menos assim que funciona: aconteceu de rolar um match com um cara que a foto te agradou. O primeiro passo é aguardar que ele entre em contato com você. E quando ele finalmente te enviar uma mensagem, leve algumas horas para responder. Se aguardar até o dia seguinte, é melhor. Então começa uma conversa superficial.

“O que vc faz da vida?”

“E gosta de fazer o q no tempo livre?”

“Sério? Eu tb adoro cinema!”

E nessa conversa rasa, tem um momento que ele vai te chamar para sair. Um barzinho, um café, uma água de coco ou qualquer coisa parecida.

Esse é o segundo passo: tem que se fazer de difícil o suficiente para deixar o cara interessado, mas não tanto que ele perca o interesse. Foi quando eu percebi que estava perdendo o jogo de lavada!

“Por que?” você me pergunta.

Porque eu não sei jogar.

Eu penso assim: se rolou um match, porque eu tenho que esperar que ele tome a iniciativa? Porque eu não posso começar uma conversa?

Então meu celular apita avisando que tem mensagem. Se eu não estiver muito ocupada, eu paro para olhar. Seja lá quem tenha me enviado a mensagem (um carinha, minha mãe, o Papa ou meu cachorro), eu respondo. Se eu li, porque mesmo que eu tenho que esperar para responder?

Outro ponto do jogo que eu perdi feio:

“Vc é engenheiro ambiental! Que legal! Eu ontem vi um documentário sobre o Sistema de Agrofloresta de Enrst Götsch e fiquei apaixonada pelo trabalho que ele desenvolve. ”

Cri cri cri…

O jogo não quer saber que você lê, estuda, pensa… O jogo deve ser superficial. E eu não tenho paciência para superficialidade por muito tempo. A verdade é que eu não tenho paciência para o jogo. Ponto.

Eu gosto de conversas com conteúdo. De passar horas discutindo Games of Thrones, a possibilidade metafisica de multi universos, as consequências kármicas de atitudes banais e aquela piada idiota que me faz rir durante horas.

Esses joguinhos são superficiais demais. Desesperados demais. Quem disse “azar no jogo, sorte no amor”, não conhecia os apps de relacionamento.

Luto

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Eu nem sei o que dizer.

Luto.

Luto pela igualdade entre gêneros.

Luto para poder sair à noite sem medo.

Luto para não ser assediada na rua.

Luto pelo direito ao meu corpo.

Eu nem sei o que dizer.

Luto.

Luto pelas mulheres mortas pelo machismo todos os dias.

Luto pelas mulheres vítimas de agressão física.

Luto pelas mulheres vítimas de agressão sexual.

Luto pela adolescente estuprada por 33 animais.

Eu luto.

Eu estou de luto.

Eu nem sei o que dizer.

Mestiça, com orgulho.

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A personagem mais inteligente de Harry Potter é Hermione Granger. Linda, inteligente e que luta pelos menos afortunados, a melhor amiga de Harry era half-blood, ou no bom e velho português, meio-sangue. Ela é uma dentre diversos outros personagens que nasceu trouxa mas virou bruxo. A mãe de Harry também era. Harry, por consequência, era half-blood, já que era apenas a segunda geração de sua família por parte de mãe. Quando alguém tinha esse status, essa pessoa era descriminada e tratada como sangue sujo (mudblood).

Na vida real, ser mestiço também parece ofender as pessoas. No mundo de Harry Potter, eu seria a terceira geração de bruxos da minha família. Teria herdado diversas características e histórias de trouxas e bruxos e teria encontrado o balanço perfeito entre elas. No mundo de Harry Potter, uma vez que você ganhasse o status de bruxo, mesmo sendo half-blood, você deixaria sua herança cultural de trouxa de lado. Você era um bruxo e deveria viver como tal.

No mundo real, as pessoas ainda parecem questionar a legitimidade de assumir a herança cultural de ser mestiça. A impressão que eu tenho é que, assim como o mundo de fantasia de Harry Potter, você pode ser um ou outro. Branco ou negro. Trouxa ou bruxo.

Dia desses uma pessoa me perguntou se não era melhor eu me assumir como negra. Achei engraçado. Respondi que eu não consigo me assumir como 100% negra porque entre as histórias de minha família, tem histórias dos negros, índios e portugueses e eu acho máximo dizer que eu sou a mistura de 3 povos.

Eu gosto da história da minha família. Mesmo as tristes, como o meu avô paterno que durante quase toda sua vida teve em sua certidão de nascimento “Mãe Desconhecida” porque seu pai era negro e sua mãe era uma branca portuguesa e lá na década de 1920, o funcionário do cartório do interior onde meu avô nasceu se recusou a registrar o filho de um negro com uma mãe portuguesa. Só na década de 1980 que meu avô conseguiu alterar sua certidão e colocar o nome da mãe. É triste, mas faz parte da minha história. Assim como meu bisavô materno, um português pobre e durão, que fazia o melhor bacalhau à portuguesa da história (segundo minha mãe, já que eu sou vegetariana). Não consigo me identificar como apenas 1 das 3 culturas que me construíram.

“Mas os negros estão empoderados. Não seria mais fácil ser negra do que ser mulata?”

E eu lá sou descendente de mula para ser mulata? Eu sou mestiça.

Acho lindo ser mestiça.

E acho que estou precisando empoderar-me como tal. Já ouvi negro dizer que não sou negra. E branco dizer que eu não sou branca. E não sou nem um nem outro mesmo. Não sou nem 100% bruxa nem 100% trouxa. Sou half-blood, assim como Herminone.

Às vezes tenho a sensação que me identificar como mestiça é quase um palavrão, como um “mudblood” dito em alto e bom som. Que eu deveria me assumir como negra porque, como me disse a criatura com quem eu conversava, “é mais fácil”. E desde quando a gente valoriza o que é fácil? A gente gosta mesmo do que é difícil. Hermione Granger era fera em decifrar os enigmas mais complicados.

Eu nunca quis ser branca. Quando eu era criança, meu apelido era “nega-preta” porque, como eu vivia tomando sol, minha pele era muito mais escura. Eu adorava quando meus tios me chamavam assim. Quando fiz 15 anos, eles fizeram uma faixa “Viva Nega Preta” e prenderam na parede do meu aniversário. Achei lindo.

Esse título passou para minha prima quando parei de tomar tanto sol, Nega Preta 2, e hoje já temos a Nega Preta 3, já que a número 2 é uma adolescente meio emo meio light-gótica que evita o sol. Ser Nega Preta na minha família é título de honra!

Eu fui uma das primeiras meninas do meu colégio a assumir meu cabelo natural. Quando eu tinha 15 anos, apenas 2 outras meninas da escola mantinham seus cabelos cacheados. E logo eu descobri porquê. Apesar de ser muito mais fácil de manter meu cabelo natural, lembro de colegas meninos dizerem que eu estava ridícula.

Não é que eu nunca tenha querido ser negra. Eu nunca pensei nisso. Nem bruxa nem trouxa. E volta e meia eu tenho essa conversa com alguém que quer me rotular. Mas eu não quero ser rotulada. Rótulos são taxativos. Ou isso ou aquilo. Ou verde ou amarelo. Ou branco ou preto. Ou pardo, que é horrível.

Acho linda a cultura negra. Identifico-me em centenas de milhares de coisas. Acho linda a cultura portuguesa. Não posso falar muito sobre a cultura indígena porquê dessa, pouco ficou na minha família. Mas adoro a mistura.

E para quem acha que ser mestiça é palavrão, eu só posso sentir por você. Ser mestiça é lindo! Eu tenho o privilégio de pegar a beleza (e os defeitos) de ambos os lados. Meu cabelo é de negro, minha pele é uma mistura, minha olheira é dos portugueses. Até a história do meu nome é legal.

Moreira são portugueses ex-judeus convertidos para o catolicismo para fugir da Inquisição. Silva e Santos são negros e índios catequisados pelos portugueses na época colonial. É sofrido e é lindo. Como eu posso negar um lado?

Está no meu nome, está na minha pele, no meu cabelo, no meu rosto, nas minhas escolhas gastronômicas. Eu não sou negra. Eu não sou branca. Eu sou o que eu bem entender. Eu sou livre, sem rótulos e sem código de barras.

 

Nota: quando a Hermione Granger foi alvo de racistas nas redes virtuais com a escolha de uma atriz negra para interpretar a personagens nos palcos de Londres, JK Rowling intercedeu e disse “cabelos encaracolados escuros e bagunçados, olhos castanhos e inteligente. A cor de sua pele nunca foi especificada. Rowling ama a Hermione negra”. Porque ela pode até ser mestiça quando a assunto é magia, mas quem pensaria nela negra (ou mestiça) quando relacionada a cor de sua pele?

O Feminismo de Marcela Temer

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ATENÇÃO! Esse post contém doses cavalares de sarcasmos.

Pronto, megeras! Não precisamos mais de feminismo. Ou inteligência. Está liberado de vez ser bela, recatada e do lar! Pelo menos é isso que o colunista Gilberto Amaral deixa claro em seu texto no Jornal de Brasília.

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Não precisamos de representatividade no atual governo do Mordomo de Filme de Terror… digo, no atual governo do presidente interino Michel Temer. Mire-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas! Mire-se no exemplo de Marcela Temer! A moça representa muito bem o charme e elegância da mulher brasileira.

Por falar nisso, esse lance de feminismo cansa, não é mesmo? Para quê tomarmos decisões sobre nossas vidas? Vamos deixar a faculdade para quem tem cérebro para isso. Vamos reserva nossos limitados neurônios para cuidar da casa. E se você não tem marido para lavar a cueca, culpa sua. Quem mandou perder tempo com faculdade, pós-graduação e carreira profissional? Devia ter malhado mais e comido menos para arrumar um marido rico para te sustentar. Tsc, tsc, tsc…

E eu aqui esse tempo todo achando que feminismo era outra coisa! Ainda bem que agora aprendi.

Coloque-se em seu Lugar

temer

Sentados em volta de uma mesa, eles decidiam o que seria feito de suas terras. Homens brancos, na sua maioria velhos e com ideias conservadoras. Eram eles que mandavam e desmandavam para aqueles lados. Às mulheres, se eram belas, recatadas, do lar e mais jovens que eles, tinham o papel de esposas. As não tão recatadas e definitivamente não do lar, sobravam as camas de amante ou secretária.

A única mulher naquela sala era a moça bonita que servia o cafezinho e que fazia os coronéis olharem suas coxas cheios de desejo.

“Elas que se coloquem em seu lugar”, eles respondiam rindo quando alguém questionava quem falava pelas mulheres.

Negros? Gays? Para quê? “Minoria que tem mais que ser reprimida”.

A eles, restava fazer Leis. Ninguém seria contra, afinal, eram os donos daquelas terras, coronéis mais poderosos não existiam.

Essa história poderia ser o plano de fundo de um livro de Jorge Amado, com coronéis velhos e pervertidos, que dobravam as leis a seu favor durante o dia e babavam em cima das meninas dos bordéis durante as noites.

O enredo poderia ser um livro de Jorge Amado, fantasioso e cheio de lições.

Poderia ser fantasia, mas é a nossa realidade.