Não vamos nos calar

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A aula de spinning estava a todo vapor!  O suor escorrendo, as pernas doendo. Tudo como deveria ser. Aí a professora gritou “aumenta a carga e joga o quadril para traz”.

Pronto. Acabou o sossego.

Um macho alpha deu um grito “Ai, delicia. Vem, delicia”. O que se seguiu foi uma série de gritos pornográficos.

A turma que até então dava gritos animados quando a professora mandava aumentar a carga ou a velocidade ficou muda.

Depois de alguns minutos com o macho alpha gritando, eu disse em alto e bom som “Esse cara deve ser frustrado sexualmente”. Claro que não foi suficiente para ele parar. Ele simplesmente ignorou meu comentário e continuou deixando as mulheres da turma constrangidas. Em certo momento da aula, a professora dava uma risada sem grança antes de dar o comando e apenas dizia “quadril”.

Quando cheguei em casa e contei o ocorrido, ouvi de minha mãe: “não faça isso. Você não sabe quem ele é. Ele poderia ter te dado uma resposta que você não ia gostar ou ter te agredido”.

Agora eu pergunto: alguém, alguma vez, disso a um homem “não faça isso. Ela pode te dar uma resposta que você não vai gostar”? Não, né?

Pois é.

Apesar de ter sido criado feminista, com minha mãe me dizendo para não esperar por homem para resolver meus problemas, eu também fui criada no paradoxo de não responder para “me preservar”.

Então quando eu tinha 18 anos e um desconhecido disse no meu ouvido, no meio da rua, que “queria chupar esses peitinhos” ou o colega da faculdade que eu nem conhecia me disse “queria te pegar de quatro”, eu não respondi. Apenas ignorei.

Mas ignorar foi uma agressão a mim mesma. Foi engolir a seco o assédio que até então chamávamos de cantada, como se dizer que o cara estava “cantando” reduzisse a agressão.

Essa geração de homens que cresceu com mulheres caladas precisa aprender que essa época já acabou! A gente vai falar, sim. A gente vai reclamar, sim.

Minha prima outro dia mandou um cara que a assediou “tomar no cu”. Ele ficou chocado e foi embora. As mulheres mais velhas da família também ficaram, porque elas não aprenderam a responder. Minha geração descobriu que responder tem um efeito muito melhor que calar. Porque quando a gente cala, eles acham que está tudo bem. Mas não está. Era só medo mesmo. Medo porque vocês, homens, são mais fortes e bater em mulher não era um bicho de sete cabeças. Mas essa época já acabou.

Eu sei que a gente ainda vai apanhar muito (metafórica e literalmente) antes das coisas melhorarem, mas a gente não vai ficar calada! Nunca mais!

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Não existe “machismo”. Existe machismo, sem aspas.

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O Facebook tem algo que eles chamam de Padrões de Comunidade. É uma diretriz básica de como espera-se que seus usuários utilizem a rede social. Entre essas diretrizes, existe uma sobre Bullying e Assédio, que diz:

Bullying e assédio: como lidamos com o bullying e o assédio?

Não toleramos bullying ou assédio. Permitimos que os usuários falem livremente sobre assuntos e pessoas de interesse público, mas removemos conteúdos que pareçam atacar propositalmente indivíduos privados com a intenção de constrangê-los ou humilhá-los. Esses conteúdos incluem, mas não se limitam a:

  • Páginas que identificam e humilham indivíduos privados,
  • Imagens alteradas para humilhar indivíduos privados,
  • Fotos ou vídeos de bullying físico publicados para humilhar a vítima,
  • Compartilhamento de informações pessoais para chantagear ou assediar as pessoas, e
  • Solicitações de amizade ou mensagens indesejadas enviadas repetidamente.

Definimos indivíduos privados como pessoas que não receberam atenção da mídia nem interesse do público em consequência de suas ações ou de uma profissão pública.

(Leia na integra.)

O próprio Mark Zumckerberg já se pronunciou algumas vezes sobre o assunto dizendo que posts com conteúdo que violam a política de comunidade da página são terminantemente deletados.

Seria lindo, se fosse verdade.

Não é nenhuma novidade que as redes sociais são palco para o linchamento pessoal. Seja de famosos ou de anônimos. Mas o que será que acontece quando um usuário denuncia um comentário considerado assédio moral ou bullying à administração do Facebook?

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É isso que acontece.

Deixa eu voltar a história para o inicio e explicar melhor.

A BBC Brasil fez um artigo falando sobre os absurdos dos cartões de Natal personalizados dos Americanos. Na chamada, lia-se:

Armas, ‘machismo’ e sexo: veja os cartões de Natal que chocaram a internet em 2015

Leia o artigo completo.
Leia o artigo completo.

Eu, como boa megera, não perdi tempo e comentei:

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Imediatamente veio um rapazinho e respondeu meu comentário com um “Só podia ser gorda”.

Quando eu era adolescente, eu aprendi que gritar ou partir para as ofensas pessoais são uma prova de que você além de não ter argumentos para responder, é um ser desprovido de inteligência. E como com pessoas desprovidas de inteligência não existe possibilidade de diálogo, eu fiz a única coisa que eu poderia fazer nessa situação: denunciei o comentário ao Facebook e bloqueei o rapazinho para que eu não visse mais nada que ele postasse.

A resposta da minha denuncia não demorou nem 2 horas e vocês já sabem o que ela disse: ele não violou os termos da comunidade. Não havia discurso de ódio ou bullying naquele comentário.

Logo, logo, diversos outros usuários responderam meu comentário. Nenhuma surpresa no que li:

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Que lição eu tirei disso? Que o Facebook não cumpre o que promete. Afinal de contas, o que ali aparece é apenas mais um reflexo de nossa sociedade e nossa sociedade é machista e preconceituosa.

Mas tem outra lição: se o feminismo não estivesse incomodando, obrigando as pessoas a pensarem e mudarem sua forma de encarar o mundo, ninguém teria se dado ao trabalho de responder e meu comentário teria passado despercebido. A BBC Brasil, apesar de seus artigos superficiais e de sempre cometer gafes como essa, se retratou – pelo menos no meu comentário. Os homens que comentaram com machismo, bom, só posso dizer, queridos, que vocês perderiam qualquer teste sobre sua real masculinidade. Ser homem é entender que vocês são iguais à nós, mulheres. O machismo como forma de se impor faz de vocês apenas meninos, crianças. E todo mundo que criança precisa ser educada.

À BBC Brasil cabe a responsabilidade por não só permitir como também incentivar tais comentários. Usar uma palavra entre aspas nesse contexto significa ironia. E como eu disse, não existe “machismo”. Quem diz “machismo” (entre aspas) são os humoristas que fazem piada sobre agressão à mulher. A BBC Brasil errou feio!