A Política, o Ódio e outros sentimentos

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“Puta! Vá se foder, Hilary”

“Vadia”!

“Enforque essa a puta”!

“Vá se foder, seu preto”!

“Saia daqui, viadinho”!

“Sieg Hiel”! (expressão alemã que significa “salve a vitória”, usada por Hitler)

Isso são apenas alguns dos comentários dos eleitores de Donald Trump que foram capturados em vídeo. Quando saiu o resultado das eleições americana, minha timeline foi inundada de postagens políticas e apocalípticas: será esse o início do fim do mundo? Aqui no Brasil, nossa realidade não é tão distante do preconceito, machismo, homofobia, transfobia e racismo dos americanos.

Nesse momento, eu não me importo muito com sua posição política. Você pode ter sido contra ou a favor do impeachment, contra ou a favor de Trump. Mas a forma como você lidou com tudo o que aconteceu por aqui nesses últimos meses diz muito sobre você.

Hilary, uma mulher branca, foi xingada. Desrespeitada. Donald Trump, que inclusive confessou quando não sabia que estava sendo gravado de agredir mulheres se livrou de tudo dizendo que era “conversa de vestiário”.

Dilma, uma mulher branca, foi xingada. Desrespeitada. E aqui não consigo nem escolher apenas 1 político homem para fazer o comparativo, de tantos que foram perdoados por serem homens (estupradores, drogados, corruptos… como escolher apenas 1?).

Sua posição política deveria ser a menor das questões.

Mas não é.

Deixando de lado o fato dela ter sido a Presidente, o que por si só exigiria algum respeito, Dilma é uma senhora. Uma mãe, uma avó. Você gostaria que falassem de sua avó como falavam dela? Que fizessem adesivo incentivando seu estupro? Que a chamassem de puta? Que escrevessem em revista de circulação nacional que o problema de sua avó era falta de sexo? Então porque considerou ok escrever isso tudo sobre Dilma? Você pode não concordar com as políticas dela. Pode achar que ela foi uma péssima administradora. Mas faltar com respeito, nunca!

Vou ainda mais longe, você não deveria se chatear com o desrespeito a ela porque você tem avó, ou mãe, ou irmã. Você deveria ter se chateado porque você é um ser humano. E seres humanos deveriam ter empatia e respeito a outros seres humanos.

Donald Trump é casado com uma mulher linda. Que já foi modelo, mas hoje é uma bela, recatada e do lar. Igual a Primeira Dama brasileira. Uma mocinha boba, infantilizada pela mídia e que ocupa um papel figurativo num governo retrogrado, machista, homofóbico, racista e elitista.

A eleição americana e a política brasileira têm algo em comum: a raiva generalizada. Lá na terra do Tio Sam, Trump ganhou ao incitar o ódio às mulheres, negros, gays, latinos, muçulmanos e qualquer um que fugisse do padrão de família branca.

Você percebe a semelhança com o quadro político brasileiro? Fugiu do padrão de tradicional família, será odiado.

Eu não gosto da palavra vitimismo, mas arrisco até a usá-la aqui: “as feministas querem acabar com a tradicional família brasileira”; “os gays querem acabar com a tradicional família brasileira”; “os transexuais querem acabar com a tradicional família brasileira”.

A Tradicional Família Brasileira, que sempre esteve no poder, de repente se viu perdendo espaço (na verdade, eles não perderam nada, mas a gente conquistou alguns espaços que eram exclusividade deles). É preto e favelado entrando na universidade. É mulher sendo chefe de estado. É gay ocupando cadeira no senado. “Eles estão tirando o poder da gente. Vamos ser dominados por mulheres, por negros, por gays, por nordestinos” (aliás, o que o Sul faz com os nordestinos é o que os EUA fazem com latinos).

Sabe que outra sociedade teve um pico de ódio generalizado como esse? A Alemanha Nazista. Bastou que um homem que soubesse manipular as pessoas através do ódio tomasse o poder para que judeus, ciganos, negros e mulheres passassem a ser considerados seres menores.

Não é à toa que o movimento neonazista está crescendo.

Só que lá nos EUA a gente ainda entende, mesmo que não concorde. Aqui no Brasil? Em um país tão miscigenado, com uma mistura tão bonita? Pregar a pureza de raças chega a ser irônico.

O momento político mundial é um whitelash: uma reação da parcela branca da população aos movimentos de empoderamento da parcela não branca. A Europa vive a crise dos refugiados, com brancos gritando para qualquer um que não pertença a sua “raça” para “voltar para a África”. Os eleitores de Trump gritaram “construa o muro”, para manter os latinos fora dos EUA. E Marcela Temer deixou claro que no governo atual, o lugar de mulher é em casa cuidado dos filhos.

Está tudo conectado. Os países são diferentes. Os governos são diferentes. Mas quem quer nos mandar de volta de onde saímos esquece que foram eles que nos procuraram em primeiro lugar. Foram os Europeus que decidiram explorar a África, o Oriente e as Américas. Foram eles os responsáveis por nos mostrarem que eles estavam ali. Foram eles os primeiros imigrantes. Agora não dá mais para voltar atrás.

Foram os homens com sua sede de poder e guerra que forçaram as mulheres a entrarem no mercado de trabalho durante a Segunda Guerra Mundial. Ou a gente trabalhava, ou não haveria mão de obra, já que os homens estavam no front de batalha. Agora não dá mais para voltar atrás.

Seja sua visão política liberal ou conservadora ou sua visão econômica capitalista ou socialista, o que o mundo precisa nesse momento é tolerância. Não dá mais para voltarmos atrás e mudar o que já foi. O que precisamos agora é caminhar para frente e em direção a um futuro melhor.

Como diria Pitty, “o negro não vai voltar para a senzala nem a mulher para a cozinha nem o gay para o armário”. Nós estamos aqui e vamos continuar aqui. O ódio não vai vencer.

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Se Dilma Rousseff fosse uma personagem de House of Cards

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ATENÇÃO: este post contém Spoiler da série House of Cards.

“Tudo tem a ver com sexo. Menos o sexo. O Sexo tem a ver com poder. ” Essa foi mais ou menos a frase que Frank Underwood disse na série House of Cards, do Netflix, que parece ter virado a queridinha dos jornalistas políticos. Já li alguns jornalistas citando frases da série e até um dizendo que Eduardo Cunha estava longe de ser Underwood.

Mas alguns pseudojornalistas exageram na medida quando vão escrever e tendem a inserir mais dramatização em seus artigos e colunas que o bom jornalismo (e o bom senso) permitem. A maior prova disso foi a pérola publicada pela revista Época “Dilma e o Sexo” (o link original foi desabilitado pela revista após a repercussão negativa, mas você ainda pode ler o artigo aqui).

O jornalista dono da coluna, João Luiz Vieira, fala que a Presidente precisa erotizar-se para cumprir um bom mandato. Ele compara a Presidente com a internacional Jane Fonda, símbolo de vitalidade sexual nos seus 70 e tantos anos e termina falando de mitologia: as amazonas guerreiras da mitologia grega tiravam um dos seios para poder manipular um arco e flecha e, segundo ele, o feminino guerreiro precisar excluir a feminilidade para entrar em campo de batalha.

claire_01Independente de minha inclinação política (não votei em Dilma), quero dizer que me sinto ofendida como mulher. Na verdade, é até mais que isso. Na ficção, dizer que Sexo tem a ver com Poder faz uma frase de efeito brilhante e digna de séries como House of Cards. Na vida real, em diversos momentos o sexo é sinônimo de poder. Mas no jornalismo, fazer comparações da vida sexual de uma mulher com sua habilidade de liderar o que quer que seja cheira pior que quarto de motel depois de uma suruba em que o ar condicionado quebrou no meio e um dos participantes exagerou na bebida e passou mais tempo com a cara enfiada no vaso sanitário do que no órgão genital de outra pessoa.

A vida sexual da Presidente não tem absolutamente nada a ver com sua habilidade de ser uma excelente ou uma péssima governante. Em momento nenhum a vida sexual de Lula, FHC, Itamar Franco ou mesmo Collor foi discutida. Mesmo com todos os escândalos e toda as cutucadas da oposição. Então porque a da Presidente Dilma é?

Porque os argumentos estão se tornando repetitivo e, aos poucos, se esgotando e a única solução é apelar para o jogo baixo: o machismo. É uma forma menor de jornalismo que beira a dramatização de novelas mexicanas. Então enquanto eles miram em Frank Underwood, acertam em roteiros dignos de Maria do Bairro.

E se esses jornalistas vivessem uma realidade igual à da série que parecem tanto amar, talvez eles já tivessem tido o mesmo fim de Zoe Barnes.

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A Presidente Dilma não merece ser estuprada

1yrfbt96gDizem por aí que começou como um protesto em relação ao aumento do valor da gasolina. Mas os adesivos com a cara da Presidente Dilma que viraram uma modinha reforçam a cultura de estupro.

Se você teve a sorte de não se deparar com eles: uma montagem grotesca com o rosto da Presidente, em que ela aparece de pernas abertas, é colocada na entrada do tanque de combustível e quando o carro vai ser abastecido, parece que a bomba da gasolina está penetrando a Presidente Dilma.

Independentemente de sua posição política, esses adesivos são falta de respeito. E não estou me referindo apenas à pessoa que ocupa o cargo máximo do país, mas à mulher. Pouco me importa se você é PT ou não, mas se você compactua com o adesivo, você acha que a mulher que faz algo que te incomoda merece ser estuprada. Você é machista, misógino e merece viver isolado da sociedade.

Não, o adesivo em hipótese alguma é engraçado e a Cultura do Estupro é uma coisa para ser levada muito a sério. O que o adesivo diz é: “estupro é punição para a mulher que não faz o que o homem quer”. Pior ainda, reforça que mulher é coisa que não merece respeito. Vou fazer aquela velha pergunta: se a Presidente Dilma fosse homem, teriam criado um adesivo similar?

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No Brasil, 527.000 pessoas são estupradas anualmente. 89% são mulheres, 70% são crianças e adolescentes e apenas 10% dos casos são denunciados para as autoridades. E apesar do estupro existir desde que o mundo é mundo, as leis que defendem a vítima são tão novas quanto a noção que a culpa nunca é da vítima. Acredite se quiser, até início dos anos 2000 existia na Lei Brasileira um Artigo que isentava o estuprador de cumprir pena caso ele se casasse com a vítima!

Art. 107 – Extingue-se a punibilidade:

VII – pelo casamento do agente com a vítima, nos crimes contra os costumes, definidos nos Capítulos I, II e III do Título VI da Parte Especial deste Código;

VIII – pelo casamento da vítima com terceiro, nos crimes referidos no inciso anterior, se cometidos sem violência real ou grave ameaça e desde que a ofendida não requeira o prosseguimento do inquérito policial ou da ação penal no prazo de 60 (sessenta) dias a contra da celebração.

*** Achei duas fontes diferentes, uma afirmando que a Lei foi revogada em 2002 e outra em 2005. Se alguém souber a data certa, coloca nos comentários.

E vamos deixar uma coisa bem clara aqui, antes que venham dizer que estou defendendo o PT: eu sou completamente contrária à política da Presidente. Não irei discutir política aqui porque não vem ao caso, mas compartilho o trecho abaixo que explica melhor do que eu poderia explicar em meu momento de vergonha da humanidade:

Essa prática, que jamais deve ser chamada de protesto, evidencia que faltam argumentos políticos e embasados em fatos, análises sérias e dados convincentes para respaldar as críticas contra o governo Dilma. Porque, sim, é possível criticar o governo atual e até mesmo manifestar revolta sem apelar para misoginia e analogias de estupro. – Revista Fórum

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PS: eu não irei compartilhar nenhuma imagem desse adesivo.