Não vamos nos calar

161028

A aula de spinning estava a todo vapor!  O suor escorrendo, as pernas doendo. Tudo como deveria ser. Aí a professora gritou “aumenta a carga e joga o quadril para traz”.

Pronto. Acabou o sossego.

Um macho alpha deu um grito “Ai, delicia. Vem, delicia”. O que se seguiu foi uma série de gritos pornográficos.

A turma que até então dava gritos animados quando a professora mandava aumentar a carga ou a velocidade ficou muda.

Depois de alguns minutos com o macho alpha gritando, eu disse em alto e bom som “Esse cara deve ser frustrado sexualmente”. Claro que não foi suficiente para ele parar. Ele simplesmente ignorou meu comentário e continuou deixando as mulheres da turma constrangidas. Em certo momento da aula, a professora dava uma risada sem grança antes de dar o comando e apenas dizia “quadril”.

Quando cheguei em casa e contei o ocorrido, ouvi de minha mãe: “não faça isso. Você não sabe quem ele é. Ele poderia ter te dado uma resposta que você não ia gostar ou ter te agredido”.

Agora eu pergunto: alguém, alguma vez, disso a um homem “não faça isso. Ela pode te dar uma resposta que você não vai gostar”? Não, né?

Pois é.

Apesar de ter sido criado feminista, com minha mãe me dizendo para não esperar por homem para resolver meus problemas, eu também fui criada no paradoxo de não responder para “me preservar”.

Então quando eu tinha 18 anos e um desconhecido disse no meu ouvido, no meio da rua, que “queria chupar esses peitinhos” ou o colega da faculdade que eu nem conhecia me disse “queria te pegar de quatro”, eu não respondi. Apenas ignorei.

Mas ignorar foi uma agressão a mim mesma. Foi engolir a seco o assédio que até então chamávamos de cantada, como se dizer que o cara estava “cantando” reduzisse a agressão.

Essa geração de homens que cresceu com mulheres caladas precisa aprender que essa época já acabou! A gente vai falar, sim. A gente vai reclamar, sim.

Minha prima outro dia mandou um cara que a assediou “tomar no cu”. Ele ficou chocado e foi embora. As mulheres mais velhas da família também ficaram, porque elas não aprenderam a responder. Minha geração descobriu que responder tem um efeito muito melhor que calar. Porque quando a gente cala, eles acham que está tudo bem. Mas não está. Era só medo mesmo. Medo porque vocês, homens, são mais fortes e bater em mulher não era um bicho de sete cabeças. Mas essa época já acabou.

Eu sei que a gente ainda vai apanhar muito (metafórica e literalmente) antes das coisas melhorarem, mas a gente não vai ficar calada! Nunca mais!